terça-feira, dezembro 15, 2015

lapides

Arlindo Alves de Souza

25 de dezembro de 1937
01 de maio de 1994

"Ele nunca faltou um dia de trabalho"


Zeca Pagodinho

04 de fevereiro de 1959
20 de julho de 2037

"Deixa a vida me levar"


Viviane B. Araujo

12 de agosto de 1980
13 de abril de 2066

"A vida é belo."



sexta-feira, outubro 30, 2015

mina

disseram os poetas tropicais
mais calvos que qualquer
dor exposta ainda é menor
que a radiação do sol ao meio dia
por isso sinto falta de gostar da
emissão do som da minha
voz bem quando você está
me escutando falar das marés
e que com certeza jovens
cantam na Portobello Road agora. e
agora. e agora. e agora estou mais
velha. só conheço o nome dos
músculos porque eles
ardem. a cada vinte oito dias
sei que não sou mãe ainda.

mas no vinte e oito de agosto
concebi alegrias que registrei
com nossos sobrenomes. quindim
G.S. exploração a gaveta cheia de papéis
rabiscados G.S. passeio no museu G.S.
lunetas de mãos no metrô G.S. nossas
respirações próximas competiram
com a harmônica
de Viena G.S. bebês sorriram e
cresceram saudáveis depois de
ouvirem-nos. três tristezas que
eu chorei foram jogadas ao
buraco negro para nunca mais. seios
rígidos G.S. pelos ácidos G.S.
bandolins se tornam extremamente
inventáveis quando estamos
encaixados e cobertos. protegemos

nossa pele da insensibilidade aos
esbarrões do mundo. só de suspeitar
que Dona Iná ainda acredita
que o carinho existe, a expedição
pelo afeto reverbera em mim. o tráfego
de Copa me arranha. mas ainda mais
a estupidez dos homens que brincam em
disputar as lideranças.
cólicas de tanto ter São
Paulo engarrafado, pop ups das guerra,
bombas e gente comendo sujeira ao
mesmo tempo, o desconsolo dos úteros
desrespeitados.
entrei em pânico
pela possibilidade de dar tudo errado
e meus netos um dia não entenderem
o peso de 0,003mg da lágrima de um outro,
ou, pior, da própria.

sua foto G.S. apitando enquanto um feijão
é servido e a bisa comemora
o tamanho das pernas de cada bisneta
correndo num quintal esverdeado do
subúrbio. Catarina me faz festa. Sua lambida
golden-retriver com vira-lata
leva as minhas angústias por alguns minutos.
existe fevereiro, mãos, ideias, ciclos. mas
principalmente a força do feminino. gosto
da torta de damasco da bisa, dos gritos
sentidos, dos bêbados, de animais
me olhando, do entendimento dos corpos,
das grandes chances de mudança e
de ti ao som de Lou Reed G.S.

terça-feira, outubro 27, 2015

amarelo um elo

apenas dez e cinquenta no bolso do vestido. no dia que me formei joguei todos os jeans do armário fora. só usei calças por motivos de pijama, teatro e enterro desde lá. berra um djavan numa casa alta. tão anos dois mil é escutar amarelo um elo. meio trapaça escrever uma rima dessas. tipo agosto desgosto amor dor macaco caco ana banana vegetariana. tem coisa que é fácil e bonita na voz de certas pessoas. não vi ninguém do grupo nesse fim de semana. uma cidade cara. o muro me diz pra melhorar. anoto uma curiosidade sobre a voz humana na aula de edição. sei lá porque gosto da medida hz. queria comer peixinho frito e conversar com meu doce amor de descendência espanhola sobre um livro de páginas amareladas numa luz amarelada numa casa no cosme velho em que até os grilos são felizes passando por lá. salsicha é mais barato. salada é mais moderno. uma das regras da felicidade contemporânea é com certeza fazer boas saladas. as modalidade olímpicas mais disputadas das décadas que virão serão cortar legumes como ninja e soltar nomes de temperos como quem joga sal num ovo estrelado, li numa revista. uma madrasta de um conto da infância de um livro que está guardado ao lado do livro ilustrado do macaco caco me dá um tapa na cara doloroso. eu revido com um cuspe no seu olho. ela me soca o estômago e me joga num pesadelo escuro. eu imploro para parar de crescer. tá de noite, poxa. a casa dos meus velhos é longe. quase quatro reais e quarenta quilômetros nos separam também. túneis, viadutos, pontes, crianças na rua, cercas elétricas. fico pensando se compro comida pronta ou se vou ao supermercado na voluntários. são quase dez e nem estou na mena barreto. penso que não aguento mais comer salsicha e nos amigos da quinta série que não falam mais comigo. sinto falta da tijuca. pastéis aos montes do Rico's Lanches e outras coisas específicas como o tijutrauma e a facilidade de sair de lá com o pé enfaixado. era tão bom. o jabuti da casa da Dona Ilse. o parque macabro no fim da Saboia Lima. meu converse all star machuca os tornozelos. corro até a voluntários. passo por uma mulher que é idêntica a Vera Holtz, caramba, é a Vera Holtz. foda. meu tornozelo sangra. involuntariamente procuro por rostos conhecidos na voluntários. não que eu queira falar com alguém. eu preciso correr para não comer salsichas. corro muito. tenho um projeto de medo de salsichas que me move. seguro com as duas mãos na minha própria nuca e saio destrambelhada. você não entende a minha vida. estou desenvolvendo um tipo de dislexia. e bipolaridade. a marcela não tá na voluntários. é segunda feira. o fato do cachorro quente ser ainda barato me deixa mais calma diante do desconsolo que está o resto todo. o cachorro quente é o meu novo colo de avó, é saber que existe colchetes e tem pessoas que os usam, é rede turquesa no nordeste, é a existência garantida de um amor amarelado. calorias de puro afeto. a flávia me encontra. tento fugir. ela não entende o papo das salsichas. me resgata do sangue do converse. fala para gente beber uma. amarela uma ela. mas e o pouco dinheiro, flávia? e o trabalho. a crise. a minha falta de modos na quinta série que eu nunca mais recuperei. a tijuca pouco iluminada. o fato de existir o longe e se chamar Berlin um exemplo dele. ah, flávia, minha nega. você não entende mesmo. jantei amendoins e líquido de milho.

terça-feira, outubro 13, 2015

cristina perdão amor

num treze de outubro não sei se de onde
você está é claro o movimento dos pássaros
que perfuram num contra-fluxo das nuvens
no aterro. engoliram metade do meu cérebro
pela manhã. passei
a criar afeição por gafanhotos. fiz um projeto
de passar algum próximo verão em Beirute
ou nos mares egípcios. nada

mais bonito que pensar no mediterrâneo
com a impressão de cores sem nome
ainda inventado para tantas delas numa
segunda de manhã. só sei que eu me manterei distante
do bairro do Rio Comprido. lá
onde um muro grita
maiquinho ama cristina perdão amor eterno
isso junto com mão com mão e pães
de queijo que iriam esquentar logo mais
em Santa que me fizeram tão profundamente
feliz. o Tito disse que
meu estômago sorriu ao te ver, emitindo grunidos
de 1650hz. crianças correram e uma geleira descongelou.
sua presença gerou sérios impactos
ambientais, um pouco mais dela e eu iria ser
mãe de hipopótamos. iria acreditar no rapaz cabelo
verde da fila que dizia ser fã número um do Mel Gibson. quem
mente sobre Mel Gibson? meu deus.

corpos tremendo na madrugada slowmotion da cidade
que chegou ao fim bem quando eu finalmente tinha
decorado a profundidade
de 0,9 mm da dobra dos seus olhos quando esbarram
de me olhar e chegavam a conclusão de um tipo de beleza comparável aos urubus
quando voam. a palavra "vontade" desde ali já tem mais
de cinquenta e três significados, disseram os pesquisadores.vontade
é engolir um céu de Goiás inteiro. vontade é construtor incansável de
casas para libélulas. vontade é um mergulho dentro
da língua. é o retrato da turma de formandos de sessenta e dois em que
chutávamos os signos de cada um deles só de
olhar seus rostos sorrisos preto branco. o futuro
dá medo, baby. vontade é querer esquecer o Rio
comprido, os pastéis de vento, o tom de azul de embrulhar ovos.
gostaria que me explicasse o verdadeiro significado
de naufragar
quando um dia me achar sem querer distante num choro
lânguido dobrando uma esquina e ter
que pular rebanhos dramáticos atrás de mim, me guardar
então próxima ao seu cangote, cantando com aquela voz
arnaldo antunes. caramba. o cheiro

da sua barba por fazer me inflama
os passos. uma bomba explode longe
daqui. eu sei. sabemos todos. rezo para que não destruam
o Rio Comprido. maiquinho ama cristina perdão amor eterno.
mas por lá, pelo Rio Comprido, não vou passar
nesse outubro de jeito nenhum.

segunda-feira, setembro 28, 2015

como desaparecer completamente aos poucos

Joana entrou num corredor escuro, abraçou os joelhos contra o peito até poder engolir suas ligações. era seu aniversário de vinte anos. sua primeira festa surpresa. os convidados continuaram dançando e até cantaram parabéns mesmo depois que Joana desapareceu.

Vicente resolveu começar a dieta do limão. no primeiro dia você come um limão logo pela manhã. no segundo, dois. no terceiro, três. e o número de limões só aumenta ao longo dos dias. no 57º dia, Vicente desapareceu.

Kim era o filho mais novo de uma família de comediantes premiados. depois de muito preparo, ele contou sua primeira piada. ninguém riu. nem mesmo Anabela, que ria de tudo e era tão bonita. Kim desapareceu na hora.



COMO DESAPARECER COMPLETAMENTE AOS POUCOS

1. não corra risco de ser minimamente fundamental

1.1- a intensificação num grupo de pessoas te faz criar memórias, contexto para existência e atrelamento como soldado indispensável de um batalhão, por exemplo. seria impossível a um beatle desaparecer.
1.2- circule entre muitos ambientes diferentes numa só noite ou dia. nos ambientes, lembre de circular pelos grupos. não deixe que os assuntos, extrapolem para muito além do "tudo bem?"
1.3- evite envolver-se com pessoas generosas e/ou pacientes. eles não sabem o que fazem. nada pior que a insistência de um outro no indivíduo que almeja o desaparecimento.
1.4- a não intensificação de algum tipo de relação social garante que o indivíduo possa ser bastante dispensável em todo e qualquer ciclo social. não ser imprescindível na vida de um outro alguém facilita o desaparecimento. pois, no processo, corre-se menos riscos de algum outro indivíduo notar a falta de algum membro, sentimento ou opinião do desaparecido. até a própria presença do agente do desaparecimento vai custar a ser percebida como ausente.
1.5- não leve a sério quando alguém lhe disser "você está se sabotando". sorria e diga "to nada".
1.6- não fale e, preferencialmente, nem saiba de algum assunto o bastante para desdobrar-se sobre ele por algumas horas.
1.7- evite ter camadas. elas só atrapalham.

resultado: o desaparecimento gradual daquilo que diferencia seus olhos e umbigo. o fígado e a bile também desaparecem em alguns casos.


2. não tenha personalidade de fácil definição ou memorável

2.1 - para isso, é imprescindível ter a capacidade camaleônica de sempre se adaptar ao meio, como forma de proteção. questionar, expor-se ou diferenciar-se num ambiente, impossibilita o desaparecimento.
2.2 - não tenha características ou gostos imutáveis ou irredutíveis. é importante esconder ao máximo possível referências. não tenha obsessões, nem ídolos.
2.3 - não pratique nenhuma forma de arte a ponto de formar um estilo ou seguidores.
2.4 - não estude seu mapa astral ou faça análise. não se conheça. é muito importante que seu nome não seja atrelado a nenhum tipo de arquétipo interessante.
2.5 - a não associação da figura do desaparecido a uma imagem nítida ou descrição obvia, facilita para quando forem - se caso forem - atrás do indivíduo no processo de desaparecimento, não conseguirem encontrá-lo. o indivíduo com talento para o nada específico, tende a ser visto como bom. suas opiniões são superficiais, assim como suas possíveis indignações.
2.6 - tenha senso de humor passivo, sempre complementar ao de alguém mais notável. anule qualquer tentativa de sarcasmo, ironia ou destaque por meio do humor destrutivo, escape fácil para a desistência.
2.7 - a cor de seus cabelos não pode mudar.
2.8 - não tenha um bar favorito.


resultado: o desaparecimento de boa parte de olhos, assim como a visão e a gargalhada.


3. ignore a potência e a clareza de sua voz

3.1 - ter uma péssima dicção é importantíssimo. faz com que as pessoas desistam de entender o que você está querendo falar.
3.2 - adquira uma incapacidade de falar alto. solte muito ar no começo das frases que ajuda.
3.3 - é necessária a falta de clareza naquilo que diz. não estamos falando de complexidade, mas sim de incerteza e, principalmente, nenhuma elaboração ou embasamento prévio da fala.
3.4 - nunca defender algo, alguém. é de extrema importância não se ter partido ou senso de justiça para desaparecer.
3.5 - não cantar. jamais cante para alguém.

resultado: desaparecimento da voz, dos bônus salariais e, gradualmente, da própria boca e estômago.


4. considere seu sexo como mera peça de encaixe

4.1 - seu cheiro não pode ser lembrado. nem como ruim, nem como bom. elimine os perfumes. mas, também tome banho sem entusiasmo. repita para si: isso é só um pênis ou isso é só uma vagina. use termos técnicos. apelidos humanizam.
4.2 - não tenha um corpo notável. nem em cuidados, nem em especificidades. o não conhecimento e apropriação do seu corpo, facilita ao desmembrar-se. um corpo flácido, sem músculos, expressão ou força é o ideal para quem quer desaparecer rápido.
4.3-  a total desconexão com quem se propõe a te fazer gozar, também impede o gozo do outro muitas vezes. no caso da desconexão falhar, fale sobre sentimentos como quem arrota depois de uma coca - cola. não finja orgasmo, finja (imponha-se) o tédio. e torne-o uma arma a anulação do prazer do outro. nada como sentimentos vazios, um corpo mole e progressão da apatia sexual para incentivar ainda mais ao desaparecimento.
4.4- não procure coisas novas. seja técnico, direto. a inovação pode trazer a surpresa e assim, um prazer que antes era desconhecido. o prazer é o maior inimigo do desaparecimento.
4.5- evite o exótico ou erótico.

resultado: desaparecimento do tato, seguido por gradual desaparecimento das mãos, pescoço, virilha, útero (fem) e, as vezes, dos orgãos sexuais.

5. não tenha ideias.

5.1 - ter ideias pode culminar querer mudar algo, alguém, um sistema. te incentiva a dar continuidade. a continuidade impede o desaparecimento. para alguns ela até garante a imortalidade. tenha cuidado.
5.2 - ideias podem virar sonhos e ideais. qualquer resquício de romantismo impossibilita o desaparecimento das sobrancelhas e da curiosidade.
5.3 - ideias te farão sofrer quando você tiver desaparecido e ninguém notá-las.
5.4- não discuta política. fale coisas do tipo:"sempre foi assim, sempre será." até você acreditar nisso mesmo.
5.5- não seja contra nada. nem a favor.
5.6- não tenha coletivos.
5.7- seja mais um que trabalha para alguém. e nunca seja sequer notado por esse alguém.
5.8- não tenha projetos. se tiver, esconda-os bem.

resultado: desaparecimento do tronco/peito, do tipo de letra e da sola do pé.

6. pareça natural

6.1 - nada de encontros a dois.
6.2 - camufle. finja que tudo flui. diga sempre sim.
6.3 - se caso tiver parentes próximos, "amigos" interessados e/ou participe de algum grupo de reabilitação é de extrema importância que você saia de casa, finja estar bem, finja estar levando a sua vida, finja se importar com alguma coisa (pouco relevante)
6.4 - ao perder o rosto, use máscaras convincentes para que ninguém perceba e evite seu caminho ao desaparecimento.

resultado: desaparecimento das pintas, do modo de piscar, dos vícios detectáveis e da impressão digital.


7. esqueça.

7.1 - não guarde fotos, vídeos, fatos, histórias.
7.2 - faça pouco dos detalhes. não trate nada como especial ou único. pois não é e nem pode ser.
7.3- confunda a própria imagem que você tem de você.
7.4- preferencialmente não lembre do que um outro já fez com ou por você. isso ajuda ao mais importante: não ame nada e ninguém. já mentir que ama é essencial para que ninguém te encha o saco.

resultado: os pulmões aos poucos param de funcionar e sua sombra desiste de você.

8. ao final de tudo isso:
8.1 - coloque um lençol em cima de você. e saia pela rua.

quinta-feira, setembro 10, 2015

Dia Internacional da Prevenção ao Suicídio

Era Dia Internacional da Prevenção ao Suicídio, mas Teodoro não sabia disso. Não teria tido a péssima ideia de tentar realizar o seu sonho de se matar, depois que concluiu que era esta sua missão na vida, se soubesse que esse dia existia e tava existindo bem naquela manhã em que ele martelou um gancho no teto de seu conjugado que não cheirava nem um pouco bem, pois Sâmila, a faxineira, faltou duas terças seguidas. Teodoro, que se recusava acreditar em milagres, não poderia pensar que sua vizinha de oitenta e nove anos, surda, cega de um olho e cuja a língua tinha pelos que cuspiam arroz quando se cumprimentavam no elevador, poderia passar a escutar e reclamar com o porteiro - cuspindo arroz. arroz infinito. ela só come arroz. - do barulho infernal do martelo de Teo em seu chão.

O porteiro que lia John Green, ex-viciado em loló e em transar com mulheres semi-idosas, desconfiava da vontade de desaparecimento da voz que mal saia de Teodoro ao dizer "bom dia, seu Pedro" e resolveu conferir o apartamento 705. Teodoro estava testando o nó da corda, ouvindo Bola de Nieve, quando o porteiro resolveu intervir. Teodoro com a corda apoiada em seu pescoço, se comunicou com Pedro pelo espaço que a correntinha da porta permitia. Pedro aprendeu com o vício a mentir de forma compulsória e inventou uma desculpa de que o encanamento tinha vazado e apontado para casa do vizinho. Para Teodoro, o porteiro parecia o Rappa, o vocalista da banda "O Rappa". Era meio novo, meio velho, meio negro, meio branco, meio consciente, meio lesado, não tinha estilo respeitável, mas tinha estilo, era rude, mas era doce. Teodoro pensou algumas vezes em virar amigo do porteiro, só que sentia que qualquer tentativa de amizade quando 1- se tem mais de 30 anos. (Teodoro tem trinta e dois); e 2 - a "vítima" não tem como negar a aproximação. (O porteiro tem oito horas diárias de trabalho) tendia ao fracasso ou a ser interpretado como "o maluquinho do 705".

Teodoro não conseguia tirar Pedro de sua casa. Queria transparecer que aceitava aquela invasão como algo natural, um cuidado e uma relação entre pessoas adultas que pensam em como canos podem atrapalhar a vida de um outro indivíduo. E, sim, nós, adultos, nos importamos com outro indivíduo. Depois de dezoito minutos, então, com a desculpa de comprar cigarros, Teodoro saiu prometendo voltar com um derbi azul para Pedro.

Teodoro não queria complicar a vida de nenhum motorista se jogando na frente dos carros. Pensou em pegar a bicicleta e andar naturalmente pelas ruas da cidade, pois eram grandes as formas de morrer daquele jeito. Ele ainda tornaria-se uma "porcentagem para o bem", pois levaria o assunto a girar pela internet por horas e até dias. Semanas não. O problema é que Teodoro tinha tido sua bicicleta furtada por um ladrão que dispensou seu celular antigo. Ofendido por lembrar disso, Teodoro foi andando para o metro. Sem olhar ao atravessar a rua, dando sorte ao azar. Nada adiantou. Foi comprar seu bilhete na estação Catete. Somente três reais e setenta para fazer de cinco reais um e trinta. Era caro até morrer naquela cidade, mas ele acordou na disposição. Areta e Nina, que além de terem nome de cantoras, tomarem Ayahuasca, terem cabelos verde (Areta) e rosa (Nina), fazerem trabalhos solidários e terem tido bulimia (Areta) e gravidez psicológica (Nina) na adolescência, estavam na via do metrô olhando para o próximo. Teodoro não sabia se saia correndo quando o metrô se aproximasse ou se, simplesmente, caia segundos antes do metrô passar, podendo ser pego antes mesmo de cair nos trilhos. Resolveu correr. Uma criança melecada de churros atrapalhou o seu impulso, dando tempo de Areta e Nina darem um golpe em Teodoro, seguido de alguns socos fortes - alguns desnecessários -, até ele desistir.

Do lado de fora da estação, Nina fez questão de pagar um chicabom e uma coca zero para Teodoro, mostrando o quão doce a vida poderia ser. Teodoro não queria indagar a adolescente, nem desanimá-la, mas pediu que ela listasse o que fazia a vida valer a pena. Nina disse, entre uma lista de baboseiras, sonhar. Teodoro lembrou da crise, de sua dívida de trinta mil, de seu trabalho massante, de não ter achado bonita a cidade de Roma à noite e de sua micose na parte interna da coxa. Quase vomitou. Areta disse: "ah sei lá, as coisas simples da vida". Teodoro lembrou da sua dívida de trinta mil, dos pais morando em Miguel Pereira, da sua ex-namorada que tinha o péssimo hábito de dormir com a televisão ligada e mexer na comida com a mão. Teodoro vomitou. Depois de ter tido as têmporas massageadas por Nina, enquanto Aretha tocava em seu ukulele músicas do Devendra Banhart, Teodoro conseguiu o cinismo necessário para prometer que sobreviveria àquele dia. E que no dia seguinte se lembraria de sobreviver de novo e seria assim até se tocar que seu cérebro estava sendo devorado por formigas e libélulas enxeridas.

Foi andando até a Zona Portuária, pensando ser um local fácil para "um acidente" por conta das obras, etc e tal. Nada feito. Quando finalmente um guindaste se aproximava de Teodoro, podendo esmagá-lo em trocentos pedaços gosmentos. O chefe de obras parou a operação para hora do almoço. Teodoro insistiu. Até que o notaram e pediram para ele se retirar. Foi assim o dia inteiro. Ele tentou se jogar da janela da casa de sua tia, mas seu primo, que prestou serviço militar, o salvou. Tentou roubar a arma do primo e dar um tiro na cabeça, mas ela estava descarregada e ele não sabia onde arranjar balas de revólver. Tomou doses altíssimas de remédios tarja preta, mas a validade tinha expirado. Ele subiu a pedra bonita, tentou se jogar, mas foi salvo por uma área rara de árvores fofas, onde um casal neo-hippie fumava um. Ele ingeriu quantidades estratosféricas de canela que, pelo google, em doses altas era mortífero, e só teve uma puta dor de barriga.

Pegou um ônibus na hora do rush até a ponte Rio-Niterói, reafirmando - depois de duas horas só para chegar na ponte - que sua vontade de morrer era válida, consciente e sensata. Ameaçou o motorista do ônibus com sua arma descarregada e correu para se jogar. Antes de se arremessar rumo à única coisa bem sucedida que teria feito em vida, avistou do seu lado Susana, que tinha dado impulso para se jogar direto depois de sair correndo do carro, mas bateu a barriga forte no parapeito da ponte, soltando um arroto desagradável. O barulho de filhote de monstro do Lago Ness uivando, chamou a atenção de Teodoro. Eles se olharam, disseram "oi, e ai?". Susana: "mó, bad, não to sentindo meu estômago. bati bem na boca dele". Teodoro: "tudo bem, se eu entendi o que tá rolando, daqui a pouco você não sente mais nada.". Susana: "pode crer". Teodoro estendeu a mão e perguntou se ela queria ajuda. Ela aceitou. Assim que ela subiu, ele levantou-se. Ia se arremessar, quando sentiu que abraçavam a sua perna. Educadamente, Teodoro pediu para Susana largar dos seus pés. Ela pediu desculpas. Pensou que podia pegar carona no suicídio dele e ir junto, sem ter que se jogar. Achava menos dramático e quem sabe não achariam que eram um casal de amantes fugindo da polícia depois de terem assaltado uma loja de joias de ipanema e matado uma dinossaura socialite.

Teodoro convidou Susana para dar a mão a ele. Sem últimas palavras. Sem sentimentalismo. Fizeram um trato de recusa a caretice e cretinice bem na hora de morrer. É claro que todo esse engodo deu tempo para a polícia da ponte ser acionada e chegar a tempo de se jogar em cima dos dois, evitando trânsito, constrangimento e terem que indenizar aquelas famílias. Susana e Teodoro ficaram presos na micro delegacia que fica no final da ponte. Ao final de horas de sermões, um guarda tentou ensinar a filosofia do "sim" para eles. (Que era um tipo de brincadeira construtivista em sempre responder o outro com "sim". Mesmo que sua ideia fosse oposta. Ele deu um exemplo: "se eu falo 'uau, que belo dia, que tal irmos a praia', mesmo que vocês não concordem, devem responder 'sim, que belo dia, que tal irmos a praia mas antes ficar em casa vendo um filme'. E assim seria. Para sempre".) Mesmo achando estúpido o que o guarda disse, Susana e Teodoro confirmaram com a cabeça que iriam tentar viver em barganhas de "sins" e lutariam pela sobrevivência. Eram nove da noite quando Susana apoiou a cabeça nos ombros de Teodoro, concebendo dois futuros filhos Lionel e Gilda, que se tornaria psicanalista renomada e de preço justo na região do flamengo-catete.

quinta-feira, agosto 27, 2015

semi conhecidos

ela está vindo na minha direção. não nos conhecemos direito, mas já sentamos no bar com amigos que apoiaram conversas em que nós talvez tenhamos soltado uma risada de um comentário quase engraçado dela ou meu. não somos pessoas engraçadas. ou ela não entende meu humor e nem eu o dela. então quando poderíamos ser engraçadas, somos patéticas como formigas quando jogamos desodorante nelas. por sabermos desse risco desde os dezesseis anos, sabemos fazer comentários ácidos. treinamos para isso desde os dezessete anos quando eu sai da depressão e ela fez a primeira tatuagem que tem alguma coisa ligada ao senhor dos anéis. não que eu goste de classificar, que é antiquado para alguém cool 2015, mas trata-se desse tipo de pessoa e ela está vindo na minha direção. ainda distante, a rua se torna cada vez menos longa e eu já a reconheci. e ela também já me reconheceu. começo a suar nas axilas e sinto meu cheiro. não sei se mantenho o olhar nela. não há motivo algum para fazer festinha. são oito e quarenta da manhã. mesmo que fosse mais tarde não haveria motivo, mas as oito e quarenta não tem nem como forçar a barra. abrir os braços ou o sorriso sem acreditar é transformar um cumprimento num ato triste de alguém desesperado e ansioso. lembro da minha depressão e entendo. gosto mais de mim por ela. respiro e assumo super cool 2015: não sei lidar com semi-conhecidos. nunca soube. é coisa de signo, pais separados, filha única, etc. os meus olhos ficam perambulando como se eu tivesse algum problema no meu globo ocular que não mantivesse a minha iris no lugar. consigo ser esquisita pra caralho às vezes. é assustador. mas eu lembro da tatuagem dela e ganho forças a partir daquela fraqueza. o que é o ser humano além de um bichinho que pensa e é confuso por isso, heim? já posso olhar e dar um sorriso simpático. ela está com a mão no rosto. eu não tinha percebido isso. ela também é esquisita pra caralho! cara, vem cá me dá um abraço. ok. dois beijinhos. "desse lado não!" dai a minha falta de tato que me ajuda nos comentários ácidos chega à loucura por ainda não serem 10 da manhã e eu pergunto "nossa". sim, eu falo esse "nossa" meio nojento, meio surpreso, meio com compaixão. "nossa, o que houve com o seu rosto?". é só a boca dela que está machucada. mas eu consigo destruir a lateral esquerda daquele ser humano em rápidos segundos de inadequada simpatia. ela coloca o rosto pra trás e respira como quem tirasse do ventre uma paciência que nem sabia que estava ali e diz com o subtexto "tá tudo bem, tá tudo bem": "é herpes!". eu penso de cara que ela pensa que eu penso que poderia ter pego herpes pela proximidade de nossos rostos na hora do beijinho. "desculpa! eu não quis...". eu digo como se eu tivesse perguntado por uma mãe que havia acabado de morrer ou qualquer outra tragédia. eu transformo ela em um ser que precisa de ajuda e a mim na madre teresa de Calcutá com meus olhos cheios de compaixão e uma bolsa cheia de zovirax. ela responde: "não tem importância". cara, ela é muito cool. eu também! "não, não tem a mínima importância". ela não vai embora. esquisita pra caralho, ainda mais com essa mão no rosto. eu vou, mas mando um "boa sorte", aceno como se fosse aquela tia que todo mundo odeia e viro as costas para ela, que fica alguns minutos parada absorvendo aquela informação cretina. não será um dia fácil para nenhuma das duas.

segunda-feira, agosto 24, 2015

rua cândido mendes

finalmente entendo meu espaço no bairro
quando acho uma anotação de canto
de página num livro que lia
quando pensava um tanto em você
me contando sobre sua infância no Para
ou em Paris e mais uma daquelas mentiras
que misturadas nas minhas memórias
embaladas
pelo Benny Goodman que nunca
ouvimos juntos mas me fazem ter um espaço
bem claro no bairro como alguém que viu algo
além de gorilas atrás das grades ou neve na
Madison Square. amar você nunca me alívou
uma dor de dente ou trouxe se quer
algum conforto. mas se eu encontro um ps
escrito sem recursos de equilíbrio pois devia
estar em algum ônibus em movimento um ps
que dizia apenas, entre aspas depois de
um trecho de quatro linhas
sublinhado à lápis:
isso é ele

 e por ele ter sido você
 as luzes acesas num quarto pequeno
da Glória as quatro e vinte da manhã
são reais e enormes. também os anéis
de saturno, pará, paris, e a incrível
ciência por trás da água que precipita e condensa.

quarta-feira, agosto 19, 2015

"n¨¨~iu9"

chegou aos ouvidos da única partícula de vida que após milênios se formou em marte que num planeta vizinho explodiam-se creches, feiras e casas, mesmo que dentro tivesse um avô recuperado do câncer cuidando do neto mais novo que descobria a diferença entre dromedários e camelos bem naquele instante do pôu!. chegou aos ouvidos do micro little et que um homem vestido de mulher foi espancado até a morte por um homem vestido com as roupas do filho da patroa da sua tia crente que o criou depois que a mãe fora assassinada friamente por pms numa tarde de quarta antes do jogo do vascão. a partícula fofis ficou sabendo que em território em que augusto silva filho de antonio silva e pai de aluísio silva sempre passaram fome, os bittencourt desviam milhões alguns meses do ano ou aprovam leis em que o direito de se falar e gozar do que se pensa são atos criminosos.


a única partícula de vida
desligou o rádio
 pensou "tá doido"
(segundo estudiosos isso em marte se escreve "n¨¨~iu9")
e resolveu desaparecer de vez.

quarta-feira, agosto 12, 2015

aniversário de namoro

eu falo que você fez uma coisa errada
e você diz que não fez

eu pego a coisa que ainda está errada
pois eu deixei assim pra te mostrar
a coisa
e falo: "olha aqui ó".

você olha a coisa e faz não com a cabeça
aponta pra janela
onde a noite se espalha
e fala: "olha aqui ó".


eu juro que se não fosse louca por você, te mataria com muita violência

terça-feira, maio 19, 2015

hipo(s)

santa tereza, oitenta e dois metros quadrados, lençóis e muitos deles estão no armário, o filho de alguém que mora perto não para de chorar, um bar funciona, são cinco e é quase de manhã, o livro do leonard cohen não foi lido, o ronco é seu, a sinusite é minha, respiro sutil como um hipopótamo num tanque fervendo, o norte é cada vez mais longe, a luz do carro passando na rua passa pela persiana fazendo um frizz acende apaga que me lembra a primeira memória que tive na infância, hipopótamos saem correndo e me esmagam, o ronco ainda é o seu, a criança não é nossa e chora, santa e poucos metros quadrados, a umidade aumentou a sinusite, nossos pelos pelo banheiro, a presença do gato que nem tá por perto, o bêbado grita em um beco escuro do mundo, sufoco a minha cara no teu peito, como os pêlos, me sujo inteira, dentro de você eu grito desculpa por ter chegado atrasada no cinema terça-feira meu amor, me penduro no parapeito da janela, não sinto os ossos que os hipopótamos e depois os elefantes - sim, era uma fauna louca - sem pena fatiaram, dance me to the end of love, solto o parapeito, o bêbado ainda grita, e o ronco é seu.  


segunda-feira, maio 04, 2015

cozinha planejada

cozinha planejada
lista de compras planejada
dieta planejada
receita planejada
faxina planejada
renda planejada
tarefa da semana planejada
meta do mês planejada
vida social planejada
mulher planejada

inspira um filme sobre o tédio, mulher moderna e dificuldade de comunicação na era virtual que te faz premiado pelo mundo.

segunda-feira, abril 13, 2015

um pedido para meu benzinho

cafone-me.





(e
depois
cafuné
me 
dê)

sábado, abril 11, 2015

jabuti

precisava trabalhar, mas fiz um teste desses de internet e deu que o bicho que mais combina comigo é o cachorro. fechei o laptop meio triste e não convencida. meu desejo é ter um jabuti. é claro que na infância meu sonho era ter um cachorro. hoje, no mais velho que cheguei na vida até esse instante, vinte anos e alguns dias e horas, escolho bichos, vontades e tudo aquilo que se pode mostrar pelo estilo, pela política e por alguma filosofia. mas na infância pode se ter vontades porque se tem vontades e ponto. a máxima da exposição é começar a expor que se quer. na querência incoerente de alguém que chora por um churros logo depois de ter comido um bolo. fui quase gorda quando pequena. o que me rendeu traumas e caráter. minha mãe era alérgica a cachorros. e conforme o não se mantinha, o sonho em ter um cachorro aumentava proporcionalmente. anos depois viveria a mesma sina com os amores. na vida nada se perde, tudo se ressignifica. então tive um peixe que se chamava cachorro. um beta azul que me empolgou por uma semana como um passo ao maior cuidado do mundo sendo entendido por mim. não mais do que por aqueles sete dias. e depois tive peixes para continuar brincando. chamei-os de gatos, um casal, a fêmea matou o macho. me fazendo chorar ouvindo "Tigresa". ou isso é uma memória inventada? depois tive o hamster, o pássaro, até que percebi que poderia ir além e tive peixes chamados de hipopotamo, pelicano e até pterodátilo. hoje em dia teria jabutis. são bichos admiráveis. assim como as tartarugas marinhas, mas sem a coisa projeto Tamar e possibilidade de extinção, que as faz mais especial. além da graciosidade. que falta nos jabutis. jabutis são a nova tendência do meu apego. filosoficamente falando. claro. ter a própria casa sob as costas, de acordo com seu peso e poder andar por ai, sendo seu próprio abrigo nos dias de chuva, sua própria meta e sua própria rede da velhice. sem ar condicionados de vizinhos pingando. tendo em seu próprio corpo seu designer de interiores. pense num estômago-cadeira de balanço. jabutis de meia-idade podem ir para onde quiser, sem se preocupar com o seguro desemprego ou um financiamento caixa. a bolha imobiliária não os afetou. nem os afastou do coração de sua cidade. vou ter um jabuti e viver ao lado dele. ou talvez seja o nome do meu próximo peixe.



segunda-feira, março 30, 2015

domingo, segunda e todos esses anos ao teu lado

acontece que eu vi um cara desfilando trôpego de muito bêbado, perto do cemitério de botafogo nesse dia meio cinza que tá hoje. bem nesse dia que é a cara pálida desse começo de outono. e ele, o bêbado, vestia uma camisa vermelha e destoante - que brilha neon na memória - , combinando com a sua nobre falta de sobriedade numa segunda feira de manhã. na camisa tava escrito "keep calm e me beija na boca". eu, que ouvia uma música triste pra combinar com o mau tempo e com essa insistência de pensar demais ainda em como você deve pensar sobre mim. eu, que estava trabalhada nessa coisa meio protagonista de filme, que a sobra de certo romantismo em mim ainda tenta praticar, parei toda a sina de segunda e sorri pro bêbado que sorriu de volta separando com seus dentes marrons e frágeis todo abismo que eu estava ensaiando pelas ruas e pela vida. queria parar aquele instante e te chamar pro meu lado, pra junto dessa sua presença ali em mim e te fazer ver com seus próprios olhos o milagre de estar sendo carregado pelos meus olhos e virar lembrança mesmo estando ausente. a verdade, que não tem cura, e vem à tona sem freios quando a euforia dessa cidade se torna domingo ou segunda. a verdade, que o bêbado entendeu na hora, é que eu sou louca por você.

sexta-feira, março 13, 2015

o bisavô

e toda calma dessa velhice
à prova do que se extingue  
a coisa lúdica resiste 
na matéria única
que é feita a vida
e o meu velho
uma garoa que urge 
até que não existe
mas
baby
ó! lhe resta o lúdico
o ímpeto o rústico
essa coisa à prova 
e depois não mais.



terça-feira, fevereiro 03, 2015

do pó ao pó

foi quando eu tava sentada
esperando janeiro passar assim
do jeito que só ele eu do jeito
que só eu pipocando que nem
os fogos e as ansiedades que
copacabana mal suspeita fui
atropelada num redemoinho
descabelada, senti na língua
alguém gritou que era carnaval
quando já não era mais foi
 foi só ali que percebi estava
completamente desarrumada de tudo
aquilo que sabia de mim no começo
de janeiro sentada músculos, ossos
e ambições tinham rodopiado pra um lugar
só tinha como sair procurando enquanto achava
e achava muita coisa depois passei a desachar
bem no momento em que gritaram parabéns
feliz aniversário apaguei as velas
fechando os olhos abri já era final
de novembro. percebi tudo. antes que contasse
pra um vizinho no elevador ou
pro meu melhor amigo ou que ao menos
tirasse sangue e salvasse o mundo dezembro
chegava me tirando mais um ano me
empurrando de cara com o tempo
que fugia ao longe já
junto com um bloco
e dançando na incerteza de que
ainda te amo à beça e como é
janeiro de novo eu nisso tudo
só sou uma impressão

quarta-feira, janeiro 28, 2015

poeta burro

existiu um poeta
que fez versos tão humanos
que eles pegaram gripe
e morreram no sus.

domingo, janeiro 25, 2015

esse ano tudo vai ser diferente

depois de mandar mensagens para todos os grupos de whatsap e ouvir músicas do alt-j só porque eu sei que você escuta alt-j, eu saio de casa, deixando algum filme parado no meio, à caminho
daqueles bares que tem sempre gente conhecida e que foi um prazer em conhecer, mas,
hoje em dia é até entediante a coisa de puxar assunto e resgatar piadas sem intimidade
e insistir que de um encontro casual saia uma prometida amizade que alguma bebida
nos fez acreditar. mas eu fui.
porque moro em botafogo e botafogo sempre tem alguém por perto que te convence a subir santa e como lá tem jazz ou samba penso que por acidente posso te encontrar. e alguém que me
conhece pouco diz que eu estou bebendo muito e eu fico me achando meio idiota por
rir de gente que dança ou beija esquisito. você não tá lá. é. e eu rio como se você
estivesse. como se eu tivesse um cúmplice para rir de coisa sem humor aparente.
mas nãotenho. não hoje. droga que só descubro isso quando já to na lapa
e já são mais de duas e eu já sei que na lapa a dispersão e o calor são inevitáveis. e para não parecer
angustiada, tento parecer local e finjo ser solta e dou papo pra um gringo que não para
de falar. tenho andado bastante. cada vez mais. odeio gastar dinheiro com ônibus.
cada vez mais. na são salvador tudo já tá morrendo. mas dizem que a esperança.
bem. a minha é praticamente highlander. ainda me sobram piadinhas e os
amigos fumaram maconha demais para entender. meus olhos cismam
 em te ver a todo canto. como uma assombração ou um milagre.
gasto dinheiro com táxi. penso que a vida é puro desencontro,
contradição e, nessa cidade, ainda é bastante cara. a
bandeira é dois. vou me mudar pra um bangalô
num canto da serra. sempre achei que bangalô
era algo charmoso. só não sei como não
desisto se estou tão cansada. acho que
é porque ainda tenho poucas certezas
como quando chegar em casa é só
misturar o leite condensado com
nescau que eu vou ter
brigadeiro.

segunda-feira, janeiro 12, 2015

um par de chinelos azul claro

Sheila acorda como se estivesse tomando um susto. Mas foi simplesmente o ar, na verdade a falta dele nesse calor da cidade que parece não ter mais fim. Ainda assustada, mas voltando a ter consciência e percebendo que o dia começou, Sheila começa a apalpar os pés no chão procurando com a ponta do dedão suas havaianas azul claro com marca de pé preto que dão a entender que Sheila e as havaianas tem uma relação de cumplicidade instaurada há tempos. A havaiana não está lá e Sheila tem mais um susto o que é bem desagradável para quem ainda nem acordou direito. Sheila procura nos cantos da casa e até na casa do gato e nada. E depois pensa mais e nada. Uma bomba explode e mata alguns em algum lugar no oriente segundo o noticiário que passa na tv alta do vizinho. E ao agachar-se no chão, Sheila sente o peso do mundo, a bunda mais murcha, uma vontade imensa de simplesmente dar um “crtl” mais alguma letra, “l” ou “f”, para achar seu par de chinelos de todo dia. A sensação de que tudo é perda nessa vida se instaura em Sheila e ela sente vontade de matar o gato pra sofrer tudo de uma vez só. O gato na mesma hora percebe e sai correndo, se escondendo atrás da geladeira, aonde passará as próximas horas com a barriga pra cima. Se bem que o “ctrl + z” seria de uma utilidade incrível na sua vida de seis anos pra cá, pensa Sheila. Mas isso já é outra história, não adianta chorar o leite derramado. Bola pra frente diria sua avó Leilinha do sul. E na verdade se tivesse o tal “crtl + z”, Sheila voltaria para o ventre de sua mãe e tentaria ver se ela mudava de ideia ao escolher seu nome. Sheila não era um nome que tinha a ver com ela. Magra, cabelos castanhos lisos, olhos castanhos, designer e aluna de pilates. Só o nome Sheila ocupava mais espaço e ambição que a própria Sheila tinha tido na vida. As sandálias estavam embaixo do sofá e ela não sabia como tinham parado lá, o que era angustiante. Ficou tentando lembrar dos passos do dia anterior, enquanto ia tomar um banho. Correu para abrir o celular, os pés molhados sob as havaianas. Sua mãe fez um whatsap e fazia questão de mandar um BOM DIA todo dia às 07h da manhã, mesmo sabendo que Sheila só acordava depois das 9h. O que incomodava Sheila, pois queria que a mãe pensasse que ela levava uma vida saudável, assertiva, e as 8h já estava tomando um expresso. Então assim que acordava ou quase isso, ela abria o celular só para a mãe ver a última hora que ela entrou. Mesmo que ela nunca respondesse a mãe na esperança de um dia aquelas mensagens desaparecerem de sua rotina. Sabia que a mãe não ia parar e o dia que ela não recebesse BOM DIA, más notícias viriam no lugar. Colocou a roupa. Uma calça larga bege e uma blusa branca. Foi pendurar a calcinha no varal dos fundos e deu de cara com a empregada da vizinha. A empregada da vizinha trazia a Sheila uma vontade louca de trepar. Era como se ela visse que Sheila não transava muito e nem muito bem e Sheila olhasse pra ela querendo mostrar que, no fundo, já tinha dado no hallzinho da lixeira ou numa escadaria na lapa. Mas não tinha. E a empregada da vizinha dormia sabendo disso. Sheila foi pro quarto ver uma roupa nova e tocava em si como se estivesse teclando num tablet sem o mínimo de convicção. Obviamente se sentiu patética e manteve a roupa e a pose de quem não precisa provar a ninguém já transou com caras nojentos em situações nojentas. ok. Pegou as coisas e certificou-se de que havia deixado as havaianas no local de sempre. Quase saiu, mas voltou. Disfarçando ir buscar alguma coisa e fazendo questão que ninguém percebesse, beijou lambido cada parte do par de chinelo azul clarinho. Mais tranquila, saiu de casa.