sexta-feira, dezembro 16, 2011

Um conto de um possível amor

 Ela - Oi!
Ele - Oi!?
Ela - Você não sabe quem eu sou, né?
Ele - Desculpe, mas não...
Ela- Tudo bem! É que eu te vi entrando aqui e...
Ele- Você me conhece?
Ela- Ainda não. Na verdade, eu até poderia te conhecer, acabar te conhecendo, mas a gente é muito tímido né...
Ele- É, sou de Peixes.
Ela- Imaginei.
Ele- Mas, e ai? A gente não vai se falar?
Ela- Não. Só por aqui. E aqui é inventado. Tem alguém escrevendo essas falas.
Ele- Que pena. Porque eu gostei de você.
Ela- É! Eu sei! E a gente ia acabar se gostando mais e mais... Eu vi isso pela sua blusa, é uma frase do Drummond, né?
Ele- É sim. Meu preferido.
Ela- Meu preferido.
Ele- E tem como a gente saber disso?
Ela- Não. A gente vai se olhar mais umas duas vezes, até que eu ou você vamos jurar calados que qualquer coisa entre nós seria impossível. Iremos arrumar desculpas para nossa covardia. Quem sabe você pode ser um homem-bomba e eu com certeza teria um filho pequeno... Nós vamos achar algum problema, é fato, e nunca mais vamos nos ver... Só vamos imaginar como teria sido...
Ele- E como teria sido?
Ela- Iríamos tomar um café, e eu não comeria nada. Você iria insistir para pagar a conta, mesmo sabendo que ia ficar no vermelho.  Daríamos uma volta e até trocamos telefone, só que você demoraria para me ligar... uns dois dias... E eu que já tava desacreditada ao olhar a sua ligação perdida numa quinta a noite, planejo um fim de semana inteiro e te ligo.
Ele- Dai a gente se vê, vai num bar. Depois de desbancar a barreira de timidez que se instala nos primeiros quinze minutos, vamos descobrir algo em comum, tipo a frase do Drummond e  desencadearemos numa conversa sobre existência, infância, Pokemon, meu cabelo na sexta série e seu apelido na sétima... Seria demais!
Ela- E no final, sem saber direito o que eu to fazendo, eu te tasco um beijo e morro por dentro sem saber direito o que pensar do que você está pensando sobre mim! Ai que loucura!
Ele - Te ligo, assim que chego em casa! Para dizer que você esqueceu a sua carteira comigo e que inevitavelmente teremos que nos ver amanhã.
Ela- Eu vou dormir repetindo a frase do Drummond e com a música do Smiths na minha cabeça, aquela que você adora e eu também. Deus existe! A vida, a vida é muito bacana! "See the luck I had, could make a good man turn bad, so please, please, please..."
Ele-"Let me get what I want this time..."
Ela- Dai a gente se vê e se vê cada vez mais. Viramos confidentes e trocamos músicas e implicâncias como nenhum casal já visto.
Ele- Até rimos da nossa falta de coragem inicial por  não termos nos falarmos naquele dia no museu mais rápido.
Ela- Rimos tanto um do outro, que a paixão nunca passa.
Ele- Eu até penso em casar. Eu. Eu que só queria escrever sobre o amor.
Ela- E casa, meu amor, casa!
Ele- Filhos?
Ela- Luiza e Igor. Lindos, ela a cara do pai e ele com o temperamento inteirinho da mãe. Moramos bem, numa casa boa, graças ao seu livro que vendeu muito, que você dedica à mim.
Ele- Por que isso não pode acontecer mesmo?
Ela- Peixes, né? Tímido que dói. E eu sou tão negativa, acho que nada vai dar certo para mim.
Ele- Dá tempo ainda?
Ela- Não dá mais tempo. Ela tem que ir embora. Eu.
Ele- E o nome? Pelo menos o nome.
Ela- Não dá. Já foi.
Ele- E vai acabar assim?
Ela- Sei lá...
Ele- E se eu escrevesse um conto? E dedicasse à ela? A menina de cabelo castanho chanel e de olhos azuis pálidos que foi no Moreira Salles às seis da tarde nessa quarta.
Ela- Você já escreveu. Olha ai em cima.
Ele- Você vai ler?
Ela- De sem querer. E cabe ao destino o resto, né?
Ele- Eu me chamo Antônio. Uso cachecol e tenho cabelo preto. Agora você vai saber.
Ela- Acaba o conto com a frase do Drummond.
Ele- Boa! Boa! Frase ao meu bem desconhecido: "Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo" - Carlos Drummond de Andrade.

domingo, novembro 13, 2011

Aurora da minha vida

"Oh! Que saudades que eu sinto
de paródias mais originais"

quinta-feira, outubro 27, 2011

Qualquer tempo

Qualquer tempo é tempo.
Exceto para os que amam.

Qualquer tempo é tempo,
não importa quem morra ou
quem nasça.
Qualquer tempo enlaça,
até que o laço se desfaça
no tempo.

Qualquer tempo é história.
Qualquer tempo é saudade,
é lembrança ou projeto.
Qualquer tempo é um trajeto,
exceto
para os que amam.

Qualquer tempo é imprevisto e
improviso, nenhum tempo é o bastante.
Tudo é finito no infinito
do tempo.
Todo tempo vai contra o
contra-tempo daqueles que amam.

No tempo não cabe
o que o amor precisa.
Pois o tempo escraviza
e o amor é livre.

quinta-feira, outubro 13, 2011

IN/OUT

IN
essa inquietude, essa necessidade de algo que
nem sei o que é. desespero, destempero, desespero
insensato destino, idéias, idéias, idéias e mais nada.
já sei, não sei de mais nada...

OUT
barulho da buzina do ônibus da esquina,
a lembrança de uma ida
que nunca aconteceu.

IN
você e eu.

OUT
as fotos penduradas no mural
como nos amamos, como amar é legal
em foto.

IN
nem sei mais o que amo. Tudo
o que eu sempre acreditei se contradiz
nos meus atos e intervalos. Não amo, mas
faço!
...
As vezes dói sentir e entender demais.
As vezes sinto que gosto do sofrer sem mesmo
entender o porquê mais, mas...

OUT
no telefone, é você que eu atendo
e quem sabe vamos ao cinema hoje.

IN
Sou feliz, que engraçado...

OUT
Declarações na linha.

IN
falo ou não falo?

OUT
"te amo"

IN
amo?

OUT
também te amo.

IN
ama?
me ama?
eu amada.
vocês precisam ver isso (nem sei quem ao certo)

OUT
a melhor roupa
baton vermelho
sapatilha dourada

IN
nem sei mais o  que me aflinge,
mas algo me aflinge.
Menos agora, pois me acho bonita.

OUT
beijo sua boca

IN
beijo sua boca

OUT
beijo sua boca

IN
nem sei mais.

sexta-feira, setembro 16, 2011

O filho

A cena se passa em um lugar incerto. Há um homem e uma mulher em cena. Eles trocam de roupa e envelhecem conforme o texto indica

Mulher -Enche logo essas bolas que o garoto vai chegar.
Homem - Antes, olha só o caminhaozinho que eu comprei pro moleque.
Mulher -Termina logo as bolas que eu preciso me vestir, vai, anda!
Homem - Mas, mulher o moleque pode enjoar disso tudo...
Mulher - Enjoa nada! Menino sempre vai adorar bola, tá no dna... Enche as bolas, vai!
Homem - Bolas? Pra que você quer que eu faça isso? A festa é paga tem tudo dentro...
Mulher - Mas e as bolas? Vão levar também? Esses buffets... Não confio.
Homem - Bolas? O menino vai comemorar o aniversário numa boate.
Mulher - Boate?
Homem - Mulher, o tempo passa!
Mulher - Mas, eu não posso ir com essa roupinha anos 90. O que cai bem em mim? Não quero parecer cafona... ai meu Deus... será que essa saia tá boa?
Homem - Não é muito curta?
Mulher - Para boate? Você acha que eu to tão velha assim?
Homem - Boate? Que boate?
Mulher - Do aniversário...
Homem - Você quis dizer o casamento?
Mulher - Como assim? Já?
Homem - Já! A gente já está trasado, vamos chegar depois dos padrinhos, se apressa!
Mulher - Ai meu Deus!
Homem - Anda mulher...
Mulher - Mas, o tempo vai passando e a gente nem compra o bastante de vestido pra isso...
Homem - Coloca qualquer roupa e não esquece o presente do garoto!
Mulher - As panelas?
Homem - Que panelas?
Mulher - Para a casa nova, oras!
Homem - Mulher, o presente do seu neto. Do Bruninho!
Mulher - Do Bruninho, claro.
Homem - O carrinho.
Mulher - To pegando. (entra o filho) Filho!
Homem - A gente já tava saindo de casa pra ir na festinha.
Filho - Mas...

Nisso um som em off de barulho de acidente de carro, depois voz de telejornal anunciando um acidente na linha amarela fatal.  A cena principal congela com o pai e a mãe olhando para o filho que está de cabeça baixa.

Mulher - Filho, o que houve? Você tá com a cara péssima. O garoto tá te dando muito trabalho?
Homem - Aposto que ele é que nem você!
Mulher - Um diabinho!
Homem - Não deve parar quieto! Deve subir em tudo...
Mulher - Mexer em tudo...
Filho - Pai, mãe!
Mulher - Fala logo, meu amorzinho! O que houve?
Filho - Vocês precisam aceitar que eu morri.
(pausa. O filho sai lentamente)
Homem - Mulher, coloca preto e vamos.

Fim

segunda-feira, setembro 05, 2011

Do lado de dentro.

Não sei o que se passava em você. Aliás, nunca soube. Os sinais eram poucos. E a paixão é cega. O amor nem sei mais se existe. Fora daquelas músicas que dediquei à você. Mas nós caminhavamos juntos tentando ignorar a presença de cada um. Você cantava uma canção do Bowie, bem aquela que eu tatuei. Você provoca, meu bem, você provoca. Putting out fire with gasoline. E nada mais. Só vontade.
Fogo.
Gasolina.
No chan-changes.
Eu dançava alguma coisa. Tentando ignorar. Eu juro que eu tentei. I tried, I tried. Nós ali fora e tanta coisa dentro. Quando o mundo dentro de nós se torna complexo nos tornamos outsiders. Engraçado. Ainda te amo. If you say run, I run with you. Mas o nosso tempo é outro. Não quero ficar do lado de fora e o medo é andar em círculos. Por sua causa. Não quero ficar do lado de fora e o medo é andar em círculos. Mas o nosso tempo é outro. If you say run, I run with you. Ainda te amo. Engraçado. Quando o mundo dentro de nós se torna complexo nos tornamos outsiders. Nós ali fora e tanta coisa dentro. I tried, I tried. Eu juro que eu tentei. Tentando ignorar. Eu dançava alguma coisa.
No chan-changes.
Gasolina.
Fogo.
Só vontade. E nada mais. Putting out fire with gasoline. Você provoca, meu bem, você provoca. Você cantava uma canção do Bowie, bem aquela que eu tatuei. Mas nós caminhavamos juntos tentando ignorar a presença de cada um. Fora daquelas músicas que dediquei à você. O amor nem sei mais se existe. E a paixão é cega. Os sinais eram poucos. Aliás, nunca soube. Não sei o que se passava em você. Do lado de dentro.

sábado, agosto 20, 2011

Ecos no oco.

Sinto
mas sinto muito,
pois sinto falta
daquilo
daquele
do modo
que pulsa, pulsa pulsa.

Me perco
nos seus braços
antes que
a alma
o corpo
a vontade
caiam, caiam, caiam.

E me esqueço,
enrubescida,
me deixo
no tempo,
no leito,
na noite
que passa, passa, passa.

Só para que
se faça um
eco em mim
daquilo tudo
que sinto,
minto,
amo
e me falta, falta, falta.

sexta-feira, agosto 12, 2011

Da sua maneira.

E se você quiser reclamar, falar
dos seu problemas e julgar
mais e mais tudo aquilo que é
complexo ou até mesmo os fatos
banais.
Não o faça, porque eu fujo.

Se você quiser cantar alto
aquela música, lembrar aquele
dia na rua com aquelas cores e
você e eu falando sobre alguma
coisa que nos tocava.
Não o faça, porque eu me atiro.

Se você não me quiser ofender,
nem me analisar, nem reparar
naquilo meu que é torto ou
fora do lugar.
Não o faça, porque eu me estrago.

Se você quiser andar na Lagoa,
sair daqui, criar um cão, me fazer
um filho,construir uma casa, nadar no
mar, fugir num barco, se você
quiser o mundo.
Não o faça, porque eu me perco

Se você quiser jurar o amor, o futuro,
beijar até que a morte
se esqueça de nós e romper
com o mundo todo só
para podermos ficar à sós.
Não o faça, porque eu  me esqueço.

Mas, mesmo que você insista
e faça tudo o que eu
lhe poupei, então que me aceite
fugida, esquecida, atirada, estragada
e perdida em seus braços.

quarta-feira, agosto 03, 2011

cinco oito três

Foi num 583 que nos vimos gostando um do outro pela primeira vez.
Foi logo no começo quando pensávamos que não iria acabar, nem que as tarifas aumentariam mais e mais e mais, foi logo que nos ninhamos na nossa casa e nos casamos no nosso ninho. E tudo isso embalados sob o leblon-cosme-velho e os bancos altos que nós sempre sentávamos.
O 583 e eu caindo em você nas curvas ou você sempre pedindo pra sentar na janela e a gente rindo, conversando, cantando Caetano baixinho e se amando sob o silêncio.

E sempre que algum motivo nos fazia nos desfazer do nosso 'estar-junto' e esperar o 584 cosme-velho-leblon tudo era triste, só não era pior que a demora do 583 quando se estava sozinho ou na hora de voltar. A ansiedade de chegar em casa e ver você, nem que fosse pra te olhar dormindo... mas como demorava! Por que as companhias de ônibus nunca entendem as pressas da gente que gosta tanto de estar junto?
Lembro de você lendo as poesias do Pessoa com todas as pessoas olhando, enquanto la fora Ipanema ou Laranjeiras passavam e a gente chegava no Cosme-Velho sem nem perceber a hora do rush ou Copa engarrafada. Só eu, você e cabeça no ombro com mãos entrelaçadas

Nunca imaginaríamos que tudo iria acabar com uma discussão e você entrando num 584, aos prantos, o vento no rosto e certeza que aquele era o fim de linha.
Agora, eu num 512, ao lado a praia da Urca, escrevo isso para você poder puxar a cordinha e sair em paz de mim, pra poder seguir meu novo itinerário.

sexta-feira, julho 29, 2011

Rolando pedras

O mundo lá fora parece querer me agradar, a voz rouca de Armstrong – Ella com ele – junto à luz de fim de tarde que deixa Laranjeiras mais charmosa do que sempre. Mesmo com as prósperas emoções desse fim de tarde sexta que já transmite o friendly-or-sexy-or-funny-and-charming time da noite, baby i can’t get no satisfaction.

Tenho vontade dizer tudo aquilo que me fazem calar. Dispensei as poesias de Drummond ontem e hoje dispenso as heresias do rock and roll disperso pelas ruas estreitas de Botafogo. Só porque baby, I can’t get no satisfaction.

Nesse amontoado de ideais, vontades e dúvidas me deito na cama, procurando sentido e pensando que aqueles que fizeram história não seguiam um sentido, mas sim cinco ou até mesmo seis, e mesmo contente com as expeculações de minha inquietude, baby I can’t get no satifaction. Porque eu vejo que Mick Jagger, Almodovar ou até mesmo Kundera já disseram muito do que eu quero dizer, e não, baby, não, não sinto que a minha missão seja repetir frases de efeito por isso baby, I can’t get no satisfaction. But I try and I try.

domingo, julho 24, 2011

Paçoca despedaçada

Pode o amor acabar de repente
Pode o rio acabar em enchente
E eu posso até morrer sem nada
Mas o que me entristece é ver minha paçoca despedaçada.

Pode a porca torcer o rabo
Dizerem até que é coisa do diabo
E me obrigarem a sorrir forçada
Mas o maior desespero está na paçoca despedaçada.

Que o chão suba aos ares
Que sequem rios e mares
Que a bomba seja lançada
Mas o que me apavora é a minha paçoca despedaçada.

Alguns falam que eu faço drama
outros entendem que é só o que minh'alma clama
Mesmo assim, compro jujubas - desencantada-
Mas não esqueço da minha paçoca desperdiçada.

quarta-feira, julho 13, 2011

Lucky

Um homem solitário, em seu apartamento de 62 metros quadrados em NY. Está frio, e o mundo, lá fora, é agitado. Ele com seu único contato há semanas, o peixinho Lucky e escrevendo cartas para Mia. Mia, aquela vaca que havia condenado o nosso protagonista há semanas, meses, décadas a mais profunda solidão. Ponto.

Um trago. O mundo em São paulo também é agitado e um escritor preso em seus símbolos e anseios fuma o seu maço de cigarros Lucky Strike e escreve, ou tenta escrever, sua história. Dentro do apartamento tudo era triste ou arrependimento, as contas vinham caras e o dinheiro vinha pouco. Gastava muito com cigarros, jamais fumaria um Derbi.
Mais um cigarro.
O romance. Romance. Pra quê? Pra quê toda alegoria? Necessidade de ego. Queria se tornar o ídolo de uma geração, apesar de criticar todos os ídolos de qualquer geração.
"Em NY seria mais fácil fazer sucesso"
Mais um cigarro.
Tragava profundamente à procura de inspiração. Profundamente como se a profundidade de seu romance ali estivesse e ali fosse encontrar.  Inspiração. Essa maldita que só aparece depois que o desespero já fez seu trabalho.
Tudo é lugar comum. NY é movimento.

Ponto. O homem se levanta, tenta ligar pra Mia. Nada, nenhuma resposta. Ela havia se mudado do Brooklyn. Vadia. Aonde está essa vadia? O nosso protagonista já estava perdendo as esperanças...

Jogou os papéis pro alto.
"QUE TUDO VÁ PARA O CARALHO A QUATRO"
Só queria ver Mia, ter Mia. E pouco importavam os livros e as merdas das prosas.
Mais um cigarro.
A fumaça presa na garganta. Fumaça por todo o quarto.
"Bukowski, eu te decepciono a cada momento"
Mais um cigarro.
Finalizou sem piedade o maço e o conto.
Good Luck!

O protagonista morre de asfixia, porém antes escreve no vapor do espelho: "Good Luck, good Lucky."

Nota: O escritor finalizou o conto, largou o apartamento e foi ao encontro do movimento da rua, encontrar a sorte. 
Ou pelo menos, Mia.

sexta-feira, julho 08, 2011

Poema noturno

amanhece lá fora
enquanto em mim escurecem
os anseios da noite
E assim o sol aquece

Minha presença agora
sã e quente,
age mais do que sente.
Esquece daquilo que só é lembrado sob a firmeza da lua.

De dia sou minha.
De noite, sua.

quinta-feira, junho 30, 2011

Amadores

Aquela foi analisando o tempo de Salvador
Ela foi analisando "O tempo" de Salvador Dali
Eu fui analisando o tempo e vi que a salvação não estava ali.

Aproximei-me do Beijo quando ela observava O Pensador. Duas obras. Dois olhares.
Aproximou-se do beijo quando o pensamento disparava. O amor? Uma dobra. Dois milagres.

Dali saimos de mãos dadas, desafiando as obras azuis de Picasso
ou até mesmo a arte oriental
desafiávamos as estruturas de aço
invejávamos qualquer um no Guggenheim

Juntamos nossos lençóis,
compramos os Girassóis
E berramos O Grito que o amor inspira
É só nos ver juntos ao Pé de Tarsila..

domingo, junho 26, 2011

Quando não se quer mais pensar

E você se pega pensando em alguém,
se pega pensando em não pensar em alguém,
mas mesmo antes que o pensar se faça pensado,
o pensamento ja foi consumido pela presença desse alguém
que te faz querer parar de pensar e acabar pensando em tudo,
mas mesmo o tudo é lembrança.
Lembrança daquilo que gostaria de ter sido vivido,
mas ficou no pensamento.

sábado, junho 18, 2011

Clandestina

Os bizarros desse bairro
As conversas dessa gente
Não sei se entro, não seu se saio
E eles mudam de repente

Não sei acompanhar
Mantenho meu ritmo
Como eles me olham
Invadem meu íntimo

E eu me entrego à uma fraqueza
nesse mundo que em mim não habita
Essa realidade avesa
do que minha vontade grita

Se pudesse iria embora
Sairia em direção ao vento
Mas a solidão me apavora
Medo sem cumprimento
Encaro o aqui e o agora
Ignorando os anseios do tempo.

segunda-feira, maio 16, 2011

Solidões

(Música 1. Luz fria. Cenário: poltrona, mesa, livros, rádio, jarra d’agua com copos. Quando a cena inicia-se há um homem executando uma ação contínua que é interrompida por alguma coisa como um livro fora do lugar, a segunda ação é interrompida por outra coisa que quando chega ao fim leva o homem a sentar-se na sua poltrona. Luz abaixa, quase BO. Luz acende, nisso as ações se repetem, tendo como diferencial que dessa vez, antes de se sentar na poltrona o homem troca a estação do rádio. Música 2. Ele permanece imóvel por uns segundos. Barulho na coxia. O homem olha para tentar detectar o que é. Volta a posição inicial até ouvir os gritos da mulher)

Ela – (da coxia) Abra a porta! Por favor, abra a porta! Por favor!
(ele vai abrir sem entender muito, porem com passos firmes.)
Ela – O senhor pode me deixar entrar? (entrando)
Ele – Por favor...
Ela – Obrigada. Obrigada (lhe da um beijo). Eu não sei nem como agradecer...
Ele – Quem é a senhora? São quase duas da manhã e...
Ela –O senhor poderia me ver um chá?
Ele – Me desculpe, mas eu nem lhe conheço.
Ela – Um copo de água com açúcar e eu lhe conto detalhes sobre a minha pessoa.
Ele – (indo buscar um copo d’agua) Não quero saber de detalhes, quero  apenas saber o que a faz bater estupidamente na minha porta a essa hora da noite.
Ela – Não precisa ser indelicado, vou embora de manhazinha.
Ele – De manhã?
Ela – É! Não posso me manter sozinha dessa forma. Deixa eu tentar explicar: Estou sofrendo de um desespero que nunca havia sentido antes. (busca palavras) Um infradesespero. Isso. Um tipo provisório de desespero.
Ele – (desdenhando) Sei. Uma impaciência.
Ela – Não! Bem mais do que isso...
Ele – (sugestivo) Uma angustia?
Ela – Talvez menos, não é algo que possa durar muito tempo.
Ele – E no que EU posso lhe ajudar?
Ela – Converse comigo. Sei lá, só não quero ficar sozinha naquele lugar.
Ele – E daí quer ficar aqui?
Ela – Sim. (ele faz que quer falar algo, mas ela interrompe) Ah senhor, não quero ficar sozinha comigo mesma, não fui preparada pra isso, sou diferente. Pra mim, estar sozinha é comparável a uma euforia que eu não consigo lidar. É como... A chegada de uma carta... Um telefonema no meio da noite... O subir num palco sozinha... A chegada de uma mulher.
Ele – Você quer passar a noite com um homem que nem conhece direito?
Ela – Não importa isso, eu já gosto de você, sinto que é uma pessoa legal.
Ele – Sente?
Ela – Sinto. (brincando) Ou por acaso é um monstro?  Um dragão que protege seu castelo e que não deixa ninguém se aproximar?  De qualquer forma, me ensina como lidar com essa vida dentro de um castelo tão vazio...
Ele – O vazio é algo transitório.
Ela – Transitório definitivo para alguns.
Ele – Quer me analizar agora?
Ela – Não.
Ele – Fique sabendo que eu posso estar rodeado de pessoas quando eu bem querer, não fique se achando superior.
Ela – Como é a noite? Dormir sozinho?
Ele – Bom. A cama fica com espaço.
Ela –Me ensina?
Ele – O que?
Ela – A ser feliz sozinho.
Ele – Nunca pensei nisso, quando eu pensar eu lhe dou um curso, pode deixar.
Ela – Estou falando sério.
Ele – Você quer dormir aqui na sala ou prefere a suíte principal?
Ela – Pode ser aqui.
Ele – Ótimo. Irei lhe trazer uma coberta.
(Ela o abraça.)
Ela – Não precisa fugir de mim, eu vou embora daqui a poucas horas. Prometo.
(Eles se olham, ela vai até ele e o puxa pelas mãos)
Ela - Posso só te pedir mais uma coisa? (Música 3) Fique aqui comigo até de dia? Podemos dançar! (cantarola) Aqui vamos ficar juntos diante das possibilidades do pecado e do esquecimento. A noite é uma criança! (ri) Vem! Encosta aqui comigo, abraçado como velhos amigos ou apenas na mesma respiração como dois 
desconhecidos numa noite suja! Deite no meu peito e desenrole meus cabelos...!

(Quando ela acaba de falar, os dois estão sentados; se olham, se beijam, ele deita sob o colo dela e lá fica. Música Alta. Luz apaga aos poucos. BO. Quando a luz reacende, o homem está sozinho, primeiramente estranha - música para - a ação inicial recomeça, no meio do ato ele entra em desespero e dá um berro. Música 4. BO.)

17

chuva, suor e cerveja.

domingo, abril 17, 2011

Romântica

Doralice era uma menina muito bonita.
O seu problema é que era muito romântica.

Antes de ter o seu primeiro encontro, escrevia cartas de amor para si própria. Imaginava os traços, os jeitos e os porquês e detalhes de seu amado.
Doralice sonhava com seu príncipe encantado.

Um dia, Dora saiu com Augusto, 1,75, 17 anos, as 17h e pouco da tarde. Pronto. 17 era o seu número com Augusto. Guardou tudo que tinha o número 17.
Depois foi a vez de Carlinhos, o futuro professor de biologia. Pronto. Estudava fotossíntese e genética sem parar.

Cada vez mais, Dora queria guardar algo de seus namoradinhos. Do David, ficou a mania de mascar chicletes; do Paulinho, o ingresso do cinema; do Zé, um fiapo de cabelo.
Até que um dia  Dora resolveu guardar tudo.
Quando Pedro beijou sua mão direita, Dora nunca mais a lavou.
Quando Nando tocou suas coxas, Dora nunca mais colocou calça.
Quando Gabriel falou em seu ouvido, Dora nunca mais ouviu música.
Depois do abraço de Fernandes, Dora só tomava banho para lavar os cabelos, até  quando Vitório agarrou a moça pelos cabelos e ela desistiu de vez.

Os meninos começavam a lamentar:
'Uma menina tão bonita...'
'Dizem que é superstição pra casar!'
'Dora quer que eu te compre um perfuminho?'

Mas, Dora nem ligava, tinha todas as lembranças intactas de seu amor.

Até que foi o dia do seu primeiro beijo 'sério' com Gustavo, o Tavico. E a sentença de nunca mais escovar os dentes.
Dali em diante, Dora ficava feliz com todas as suas lembranças.
E passou a vida lembrando, sua única companhia eram as moscas.

quinta-feira, abril 14, 2011

insone

insoniamalditainsoniamalditainsoniamalditainsoniamalditainsoniamalditainsoniamalditainsonia

rezo, escuto, temo fantasmas, temo a mim mesma, idéias aparecem e não fluem, pensamento vadio, o ciclo do sub-humanismo matinal prestes a inaugurar em qualquer lugar

por isso mal digo, mal vejo, mal ouço, indecente, imoral, ilegal nos pré sonhos que acompanham a nós durante essa noite que parece eterna.

bom dia.

domingo, março 27, 2011

A causa

Por causa dessa rejeição
Declaro: Nada mais me resta.
Tudo por causa de um não
E toda a alma se fecha.

Dizem, uns bons, que amores virão
Que a vida ainda é festa
Devo apelar pro auto-perdão
O que em mim ainda presta?

Tudo por causa de um não
E toda melancolia se manifesta
Sem serenidade, avessa de razão
Sufocada, respirando em brechas

Agora tento me equilibrar sem chão
Me agarro ao orgulho, um arco sem flecha
Tudo por causa de um não...
Eu que deixava e agora ele me deixa.

sexta-feira, março 11, 2011

Soneto do querer inconstante.

Não sei mais se quero, não sei mais se descanso.
Não sei se ajo por impulso, não sei se vou de manso.
Não sei se estou tão feliz ou tão triste.
Por causa desse amor que nem sei se ainda existe.

Me sinto profunda, leio poemas.
Me sinto profana, um beijo é mais um beijo apenas.
Nada é culpa, mas me culpo por nada.
Estou na contramão da minha própria estrada.

Lembro com saudade tudo aquilo que não realizei.
O medo é o que sou. e como serei.
E ainda que acredite que sonhos e amores virão...

Estou presa na beleza que na mulher é a solidão.
Sozinha comigo, ajo de modo ambíguo.
Na espera de um novo algo em mim que se faça sentido.

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

Interesses

Carlo não sentia falta de Rita
Nem da cama, nem do quarto
Do casamento, só sobrou uma fita
Perdeu, na mudança, as fotos do casal
Das músicas, não mais lembrava
Muito menos das coisas românticas que falava.

Pra dizer a verdade, nunca lhe alegrou a cor da cozinha
Nem do tom novo que pintava os cabelos, a velha Ritinha.
Havia esquecido umas coisas baratas
E abriu mão dos DVD's

A única coisa que não resistia:
Era a lembrança do pudim de passas da EX.

E embriagado de vinho francês,
ligou, pedindo o divórcio com partilha de bens.
Porque tem coisas que ele nunca aceita.
propôs: "Posso trocar até um Rodin por aquela receita!"

segunda-feira, janeiro 31, 2011

velha frase

"Decifra-me ou devoro-te"

a "key-quotation" de uma relação.

terça-feira, janeiro 18, 2011

Sinal Amarelo

Nunca atravesso a rua na faixa de pedestres. Essa mania "a la James Dean" me fez criar uma noção entre o tempo que eu levo entre uma calçada e outra e a velocidade e o tempo que o carro leva, fazendo assim com que eu ande de alguma maneira mais rápida para que minhas rebeldias rotineiras não acabem comigo. Se não fossem esses pequenos cálculos cotidianos, essas observações e limites impostos pelo próprio instinto, talvez minhas aventuras cotidianas pudessem terminar em tragédia.

Diante do sucesso desses cálculos instintivos - até agora, pelo menos - resolvi usa-los para fins emocionais também. Pois tenho em vista que minha natureza sempre gosta de correr riscos, principalmente nesse ramo de paixões, relacionamentos e afins, porém essa mesma natureza quase selvagem não me permite ultrapassar a área de entendimento e segurança, dai voltam os cálculos para garantir a não intensificação dos riscos e evitar movimentos fatais.

Lei da sobrevivência?

Ou covardia?

terça-feira, janeiro 04, 2011

Cantadas de um cinéfilo frustrado 1

1

ELE - Oi, gatinha, posso ser seu Marlon Brando?

ELA - Pode. Cadê a motoca?

ELE - Serve meu ford?

ELA - n.

2

ELE - Oi, gatinha, posso ser seu Marlon Brando?

ELA - Pode.

ELE - STEEELLAAAAAAAA!!!!

ELA fica surda.

3

ELE - Oi, gatinha, posso ser seu Marlon Brando?

ELA - Pode.

ELE - STELLAAAA!!!

ELA - Meu nome é Mariana! (dá um tapa na cara dele e sai)

4

ELE - Oi, gatinha, posso ser seu Marlon Brando?

ELA - Quer que eu passe a manteiga?