terça-feira, dezembro 18, 2012

infinito vezes zero

e foi num dia assim, tipo hoje, só que antes e mais fresco porque era outono, que ele saiu de casa. estava pronto. tinha tudo ali nele. um all star vermelho, os filmes e músicas de uma cultura burguesa de se orgulhar, adjetivos inteligentes, chicletes, uma estratégia pro jogo de luta do video game, o desodorante ideal. tava tudo ali, o que ele esqueceu pouco importava. ele era seu próprio universo, sua barreira, seu forte. ele era um astro luminoso, um cara engraçado e que importava muito pros seus pais, cachorro e avós. ele tinha um lugar para ir muitas vezes na vida, ele tinha um lugar ao sol e ele tinha, principalmente, como e aonde voltar. ele era gigante, no sentido que já misturava doce com salgado, bebia água pra hidratar, tocava baixo numa banda vanguardista e obsoleta e tinha um ídolo pra chamar de seu. ele, ah ele. ele era incrível impenetrante intolerante insensível e invisível sempre que queria. ele tinha aquilo tudo e ainda carregava uma mochila com os pertences superficiais. ele era tudo aquilo, saiu de casa naquela manhã de outono, radiando. cheio de si. que cara bacana. ouvia Richard Hell e saia fazendo caretas, desafiando o mundo, a cada distorção de guitarra.

pen pen pen

pon pon

pen

pon

até que ela apareceu.

Ela. Ela. Ela. Ela. pen. pon. pon. Ela.

ele agora não tinha mais nada.

nem era.

já era

Ela.

domingo, novembro 25, 2012

por fim, nós


frigideira suja na beira do fogão
os passos que deixaram o tapete
bagunçado no meio no corredor
espelho do banheiro com um resto
de vapor
o restinho do condicionador
sapatos
roupas espalhadas no chão
a porta do armário aberta
e por fim, nós
debaixo da coberta

um bom começo prum filme de amor.

os seus vinte e nove anos
me fazendo gostar do Godard
minhas angústias adolescentes
e a toda postura reticente
espalhados no sofá
uma frase de efeito no
fundo d'uma vontade indecente
nada, nada, nada a favor
da gente
talvez não seja mesmo
a coisa mais certa
e por fim, nós
debaixo da coberta

ate que podíamos fazer um filme de amor.

sábado, novembro 03, 2012

a alérgica

eu in
piro.

inspiro, inspiro, inspiro
e cada vez mais
inspiro e
sinto que
expiro
aos poucos.

espirro espirro espirro
e cada vez mais
respiro e
se tem poeira (ou mudança de tempo)
espirro
es-pasmos.

e pingo.
e piro.
existo
aos lenços.

quarta-feira, outubro 24, 2012

prima

outubro                     é
outono                    em
outra                    terra


eu aqui a vera.
sou toda ela.
obra-prima não,
aquarela.

sábado, setembro 29, 2012

Para Sam.

Quando fazer amor
é melhor que
escrever sobre o amor
é porque
as coisas estão indo muito bem.
Triste é ser feliz
e saber que daqui há alguns
dias essas coisas
não estarão mais assim.


Mas, acho que é dessa maneira que a vida é mesmo.

segunda-feira, setembro 17, 2012

Uma manhã qualquer na casa 23

Acordo com a minha cara
amarrotada
e visto um jeans mais
amarrotado
que me lembra que navegar é preciso
e meu jeans mais ainda.
Mamãe na cozinha
arrasada
pelo eco de semelhanças com sua mãe
que se dispersa no doce queimado.
um duelo decretado desde os mesmos traços parecidos que insistem em aparecer.
que coisa estranha é nascer pra ser.
Mamãe desesperada. Quase louca,
mas menos relevante.
Está velha.
O pai pouco se importa.
Ama-a
mas nem tanto,
nem tanto.
À mim, amava mais quando era mais novo.
Pelo menos, o amor era melhor distribuído
diante da minha pequenez.
E ele que um dia me disse que eu chegava lá,
chegava lá,
olha aí, olha aí.
nem mais o jeans serve.

E eu não sirvo pro mundo, pois sou um adolescente rebelde. Berro por seus berros, pelos seus erros. Ou calo-me. E escrevo.

domingo, setembro 02, 2012

"Hey baby"

sóbria, são 4 da manhã, e todo o efeito do alcool já se foi. não ouso levantar da cama e espero as primeiras luzes do dia que daqui a pouco, Deus querendo ou não, chegam. sóbria, são 4 horas e três minutos, acendo um cigarro, você está dormindo no sofá. é bom te sentir dormindo perto de mim. queria te avisar o quanto eu não valho nada, que só estou usando você para ter histórias para contar, na verdade, só estou usando você para ter a quem contar histórias. quatro e dez. amo esse cd do lou reed. 4 e quinze. meus olhos caem e voltam, caem e voltam, caem e voltam, resgatando as últimas vidas do dia sem fim. você me fez um poema ontem. hoje não fez. e amanhã você estará com dor nas costas, cogitando, talvez, me deixar pra sempre. eu tenho certeza disso, não precisa me enganar. você só tá comigo por causa dessa mania da gente de querer enganar com poema música foto. a gente engana, inventa amor e depois se cansa de tanta mentira, de tanta transa e procura outra pessoa. mas quem sabe teremos um filho? são 4 e 26. eu tenho vinte e nove anos. você tem gastrite. tudo é uma merda. mas o cd do lou reed repete, repete, repete, repete, repete. e eu amo a hora 4 e 38 quando você sai do sofá e deita na cama do lado de mim e se aconchega deitado na minha barriga. eu amo que amanhã você não terá dor nas costas e talvez escreva um poema para nosso bebê. and the colour girls say tchuru tchuru tchuru.

segunda-feira, agosto 27, 2012

aga dois ó


a água do mundo está acabando
e isso não é novidade pra ninguém
aliás nascemos com o mundo acabando
e isso não poupa ninguém
estamos diante de uma chacina geral
não existe mais o salve-se quem puder
mas eu mesma,
eu
to pouco me lixando para todo esse papo
e a água da minha assassina torneira
pinga, ecoando pelo corredor
estou em pensamentos pingados
só percebo que os seus retratos são bonitos
que a noite tá calma, que meus lábios incharam
e que meu cachorro ronca
e cada dia mais alto
o resto pouco importa mesmo
ainda resta um resto de saliva
sua
na minha boca.
a água do mundo estou dispensando.

domingo, agosto 19, 2012

valente


nada vale se não vale tudo
se o valor não vale
se o sentimento não é mútuo
nada vale
sem o carinho da vó velha
sem um jantar à velas
sem uma volta
nada vale se não se pode voltar
e se mesmo com tudo valendo
nada mesmo valer
navalhe a viga
navegue a vida
vá, vague
porque em algum lugar (quem sabe um vale)
alguma coisa vai ser pra valer
e você vai ver
vertiginosamente,
você vai ver quanto vale a
felicidade e a
vida
que vai seguindo
e o
vento
que vai levando
e o vão
por que não?
afinal:
"tudo vale a pena"
e aquele negócio de alma
e a velhice que tudo acalma
sábia de que tudo vale, mas se for à vera,
tudo vale:
o vento, o vale, o vão,
a alma,
ou não
também.

domingo, agosto 05, 2012

Baby, Sugar, tchau tchau

Baby,
é a última vez que eu falo. 
prometo.
já, já e eu te deixo e me calo.
                                                                                              AH
você é um calo no pé,
e tá assim assim de ruim aguentar mais um pouco.

eu, então, calo
todo batuque                                           
                                                       QUE  ANTES EU NÃO CONSEGUIA PRENDER, ENTENDE?

de longe, perto, dentro, fora, frio, quente, em qualquer pedaço que me lembre
você.

Sugar, você era a única crença que eu queria me converter
você era o medo constante de morrer
você era a música que eu tentava esquecer
você era, eu quero ser.                                                      DAI NÃO DÁ, ENTENDE?


Baby, você é aquela aflição tensa, quase uma vergonha do prazer.
Você, você era benção, religião, canção, solução e bonitinho.
                                                                      MAS, AGORA NÃO É MAIS NÃO, ENTENDE?

Baby, Sugar, você era sensa.
Agora, só sensação.
e
nada
mais.
                                                                 ENTENDA.

quarta-feira, agosto 01, 2012

1º de Agosto

madrugada mais gelada
essa madrugada
de agosto

madrugada mais sem jeito
e eu aqui num nó no peito
de desgosto

rima sem gosto
essa de agosto e
desgosto,
mas falando da madrugada

madrugada mais gelada
e eu aqui quase pelada
de calcinha e camisa
larga e velha,
à procura da rima
que deixe a coisa
séria.
vou pegar pneumonia
nessa cisma, no afoite
de querer fazer poesia
no meio da noite.

madrugada e eu aqui
podia ver o Jô
e, ah!, rir
da graça que eu nem sei se tem, mas tem.

madrugada mais gelada
essa madrugada
que se esquece num rosto,
no rosto, o rosto

madrugada tão calada
essa madrugada
que percebo que
agosto
tá só começando...

domingo, julho 29, 2012

A verdadeira história do homem que pisou na Lua


Uma vez houve um cara que - muito antes dos russos ou dos americanos - pisou na lua. (dizem alguns que meio bêbado) Tava meio perdido, não achou o Rebouças, errou a mão e quando deu por si, se viu lá, lá no topo do mundo, na imensidão cheia (insistem em dizer que ele estava meio bêbado). com ele, só haviam duas garrafas de whisky e uma bombinha - por conta da asma -, a gasolina tava no fim, não tinha jeito, ele teve que parar. (bêbado, já sabem) colocou o cinto de segurança, só para não sair tanto do chão. Flutuava, pulava crateras enormes, explorando a grande esfera branca. Tão perto do tudo. Tão perto do nada. Ele era dono do mundo. E brindava (com seu whisky barato, comprado no Mundial. O Mundial, imaginado do Universo, parecia ainda mais lotado. "pra que?"- pensava o cara - "tem tanto espaço sobrando."). Bebia um pouco, flutuava um tanto e profetizava coisas lindas que só alguns ETs puderam conferir, maravilhados com aquele ser tão esquisito. (perguntavam alguns se era um novo astro luminoso. nunca obtiveram resposta exata.) O pouco que chegou a mim, é que ele viu a face de Deus. bêbado. na lua. Ele viu a face de Deus! mas, depois deu PT e vomitou no universo até não poder mais. e daquelas misturas de pão vinho cebola linguiça whisky velho: surgiram as estrelas cadentes.

Moral da história/Ou seja: as possibilidades dos sonhos se realizarem são frutos de um porre astral qualquer.

segunda-feira, julho 09, 2012

Volta, vem viver outra vez ao meu lado.


do outro lado
da linha do Equador
você estava
e eu aqui
ficava
só, sóbrio, mórbido
dai do nada
assim como a
mosca que aparece
safada você
disse "oi"
com mala e cuia
sorriso e fúria
e toda meiguice
feminice
cumpria seu papel
e me deixava
enfim, ao léu.

E agora aqui
nesse emaranhado
desse seu cabelo
cinza cacheado
me sinto livre
juntinho de ti.
justinho aqui.
voltei de mim.

quinta-feira, junho 28, 2012

só mais essa música.



Por favor, meu bem,
me mande só mais essa música 
e nada mais.
não fale mais.
está tarde
e nessas horas 
da madrugada 
a gente vai a lugares tão distantes
que às vezes até penso que nós...
não.

não. 
me mande só mais essa música
e esqueça o resto
esqueça tudo 
esqueça o que passou
esqueci

esqueci 
que eu não podia falar isso pra você.
por favor, meu bem
me deixe. Eu vou fazer você enlouquecer.
Isso é justo?
Me mande só mais essa música
para eu ouvir
e nos ver
e me derreter horas a fio na madrugada que eu já esqueci.
fazer o que?

fazer o que?
Me mande só mais essa música.
Não vamos repetir os mesmos erros.
Agora não é hora
- madrugada fria -
de se gostar.
Eu tenho medo.

Eu tenho medo.
De errar outra vez.
Eu posso fazer você enlouquecer.
Me mande só mais essa música.
Só mais essa música.
Só.


ou mais.

quinta-feira, junho 14, 2012

Eu passarinho.

Eles
gritam alto e violam leis.
Eu
guitarra, baixo e violão.


sábado, junho 09, 2012

O Cole Porter

In the still of the night
E tudo aquilo que tava
ali.
Inside.
Cole Porter
Foi. Nunca mais.
Sempre mais.
Não sei porque, o quanto, mas noites tais
quais essa.
Ai!
"Do you love me
as
I love you?"
Dai, se sim.
the moon
o mundo
o fundo
o findo
o tudo
voltam
pra me fazer algum sentido nessa vida.

quinta-feira, maio 31, 2012

Joga fora.





De ti não guardo magoas
não guardo fatos,
não guardo nada.
não guardo fotos.
não guardo.
ponto.

De ti não guardo magoas
mas espero
sem ressalvas
que tu saias da minha vida
injuriado, arrependido
não, não espere que eu te agrida
porque você pra mim não vale
nada.

De ti não guardo magoas
porque solto em linhas
tortas
tudo o que está entalado
como sei lá
uma gorda doida de pernas grossas.
tipo tua mãe.

Espero que engordes.
Espero que embarangues
Espero que sofras
Espero que te fodas
Espero que explodas e vá pra puta que lhe pariu.

Afinal

Você é feio.
Você é burro.
Você é chato.
Você não é nada daquilo que você acha que é.
Você deveria fazer terapia.
Você é muito chato.

Enfim.

De ti não guardo magoas
jogo fora
largo mão
porque, senão, vira câncer.

quarta-feira, maio 16, 2012

Delírios


Alberto levou para Lúcia: cinco Margaridas, oito Violetas, duas Orquideas, nove Jasmins, uma Bromélia, três Papolas, nove Girassois, doze Begonias, quatro Camélias rosas, seis Camélias brancas. Rosas tinham amarelas, rosas, vermelhas e branca só uma. Dalias muitas. Daria para fazer um buquê só de Dalias. Algumas Azaléas. Dormideiras, Torênias e Lobélias azuis.

Alberto perguntou pra sua amada:

- Meu bem, gosta mesmo de flores?

Lúcia:

- Só de lírios.

Alí acabou-se o amor. "Não ia dar certo mesmo" resmungou Alberto, pensando bem.

terça-feira, maio 15, 2012

E os idiotas não quiseram acreditar...

"Só solo!"
(apenas chão)
Tentou avisar o gago
em vão.

domingo, maio 06, 2012

Primavera em Paris


18 anos 18 anos 18 anos.
Se 17 era chuva, suor e cerveja, dezoito é muito mais do que isso. Passei a aderir ao roll-on e ao vinho. Não, guarda-chuvas jamais e estou morrendo de medo do tempo, estou morrendo da falta de tempo, estou morrendo de ânsias e acho que disso nunca me curarei. Estou doente de mim. E olha que sou feliz. E nem isso me satisfaz. Complexa. Tão nova. Duh! 18 anos e acho que vou escrever um poema. Não. Acho que vou parar e pensar. Não. Tem uma lua linda lá fora, o que eu to fazendo nessa página do Word, tentando falar coisas que eu nem entendo direito. De Lua eu entendo, porque gosto, daí não se precisa muito mais. Gosto, entendo, louvo. Assim, simples, como tudo deve ser. 18 anos. Lua em Áries. O mesmo papo furado sobre signos, ainda não conheço Paris, nem aprendi a tocar sax. E porra cu caralho puta que pariu. A vida começou. Não dá para voltar atrás. A foda dos meus pais há 18 anos e 9 meses atrás ta aqui - de cachecol e blusa de bandinha - e bem, continua foda, só que agora regada de sentimentalismo e Freud. Bem menos divertida. 18 anos e eu volto para a análise. 18 anos e eu continuo querendo um colo de vó na hora do aperto e continuo insistindo naquilo tudo que aos 17 já achava infantil. 18 anos é talvez aceitar que se pode ser infantil às vezes (até você envelhecer e se ver a mesma criança só que agora com rugas e netos tirando meleca e limpando no seu sofá 4x sem juros da Tok e Stok). 18 anos. Furada. Golpe do governo em te botar caraminholas na cabeça, com documentos e mais documentos provando quão gente você é. Você que há 8 anos atrás jogava Yu-Gi-Oh, achava que iria ser chamado para estudar em Hogwarts e achava emocionante ficar acordado até depois da novela das 8. Nasci dia 8. Maio. 8 é meu número de sorte. Ao contrário, infinito. Infinito é assustador, mas as luzes da Lagoa Rodrigo de Freitas as 4 da madrugada tão lindas... Aonde eu estava? Ah é! 18 anos e o medo da finitude, do ponto final. Louca pelas reticências, virgulas. Tarada pelos exclamações. Abarrotada de interrogações.18 anos, muitos outonos pra contar ou primaveras se eu estivesse em Paris. 18 anos e emocionada ao ver que sei-lá-deus-vida-inicio-amores-cinco minutos-rir-fim faz muito sentido diante do que sou agora, diante da falta de senso que a gente se joga de corpo e alma desde o primeiro choro, daquele bate bola sub-vinte antes do jogo começar. 18 anos. Tricolor, atéia, ascendente em Sagitário, fã de Woody Allen e Caetano. 18 e já que nada faz sentido até que você se torne imortal, eu termino com um ponto e vírgula;

sexta-feira, abril 27, 2012

A decepção de Wanda.

Wanderléia acordou naquele dia com uma dor de cabeça daquelas. Daquelas! A garrafa estava derramada do jeito que ela lembrava da última vez ter visto. Cambaleando, foi ao banheiro e, evitando olhar no espelho, lavou-se. Rosto. Pescoço. Suvaco. Fez xixi em pé mesmo. No quarto, colocando a meia calça rasgada, lembrava das palavras de Robertinho no dia anterior, pouco depois de ter apresentado o seu pequeno cantinho na Lapa.

- Ingrato, Ingrato! - Resmungava Wanda.

Na noite anterior:

- Mas, Robertinho. Robertinho! Sou tua, Robertinho! Não me olha assim com tanta desconfiança. Robertinho, você está sendo mau. Muito mau! Aceite seu benzinho assim como ele é, vai. Olha, meu amor, meu amor, isso é só mais uma coisinha que temos em comum. Ri, Roberto, ri dessa situação! Mentirosa? Eu? Nunca! Omiti sim. Mentirosa nunca! Sou a mulher que mais te amou sim, sou a mulher que mais te quer e olha só, Robertinho! Olha aqui! Olha eles!  Já tinha visto peitinhos mais bonitos que esses? Já? E são meus, Roberto! Meus! Assim como a minha feminidade, assim como esta bunda que você tanto apertou. Como? Robertinho, assim você me ofende! E bem nas nossas núpcias! Bem quando você teria a mim por inteira. Monstro é o que você é! Um monstro! Mas, te amo, meu macho! Te amo e por você viraria até bicho. Volta aqui, volta aqui, meu bem! Volta, monstro, volta! Eu não tenho culpa de Deus ter me feito homem, Robertinho! Não tenho culpa! Robertinho, o que eu sinto por você é coisa de mulher! Volta!


quinta-feira, abril 19, 2012

Adolescidos

botafogo
bota fora
bota fé
no copo
de cerveja
Que seja!
Que Barra!
Barra não,
Botafogo

e as meninas de preto, de peitos, de pelos,
de linguas.
os meninos desejam.
demanda, desespero por
tanta coisa, de tanto querer botar fogo
ou dar o fora
do mundo.
ou dar o fora
de si.

Salvação?

sexta-feira, abril 13, 2012

Retrato de Giuseppe verdi por Boldini

Pinta
o rosto sob a luz da vela.

Sempre à espera
da inspiração maior

respiração
respiração

pinta
e borda
pinta
e cresce
envelhece
e pinta o velho
que se entristece
com aquilo que vê.
Pois o velho não pinta,
muito menos imagina
que sinta
algo
ao ver a pinta da mulher
que sempre dormiu ao seu lado.
Por isso, o velho sofre
o velho inspira
o velho expira
calado.

terça-feira, abril 10, 2012

Uma terça.

É terça. Rotina. É presa. Tudo comum á retina. Mundo igual, sou um terço de mim. É terça. "Bom dia, seu Zé!". "Bom dia" entusiasmado. õnibus. espera. escola. escolha não há. Matemática, português: 'canção do exílio' mais uma vez. Aonde parei? Aonde quero chegar? Qual é o meu índice?
Análise. Preciso voltar.
Análise combinatória. Oh não. "Boa tarde, seu Zé." "Boa Tarde" entediado. As músicas são as mesmas e esse outono não é frio mais. Fica comigo, fica pra sempre, tenhamos um filho.
Análise. Preciso voltar.
Mas só ouço Caetano e só vejo Fellini e só falo de coisas que já ouviram falar. Inibida, insossa, insana, exilada de mim. Quero sair desse mundo, quero fugir dessa casa, botar fogo nos livros e respirar fundo. Merda. Nem oxigênio é novidade. Quero ir pra Lua! Me leve pro céu, meu bem! Me leve pra fora. Me leve. Leve. Leve. Quanta besteira! Sou de signo de terra. "...terra para mão: carícia. terra para o pé: firmeza." me diz Caetano. Firme, sólida, polígona. Velha. É terça. Ainda! Já, já é sexta. Respira! A vida? é linda. linda.
Análise. Preciso voltar.
"Boa noite, seu Zé.". "Boa noite!" embriagado.

Escrevi isso em abril de 2010. Um pouco menos embriagada do que gostaria, eu acho.

terça-feira, abril 03, 2012

Domingo
Dor míngua
Do Mengo
em campo
Dormindo.
Dormente.
tudo
Mentira (do juiz!)

Domingo
Dó.
Dorme, meu menino
que o Mengo
hoje não joga
e de que vale a vida
se a bola não rola?
Um meio de campo
sem borda
Ah!
na vida
o que mesmo importa?
É domingo
Dor minha.
Dorme menino.
Domina-me
nesse sonho
seu que é
show de bola.

terça-feira, março 27, 2012

Cinzas.

Eu aqui sentada
Nesse fim de esquina
Num bloco de pedra
No fim da Marina
É o fim de tudo
E a calça aperta
E o bolso vazio
E a alma liberta
E o coração aperta
Afaga, alerta
Como os últimos
Toques do tambor

Tudo é negro
É o fim de tudo.

A música toca, mesmo
Com  a voz rouca e perna
Bamba e a perna torta
Há resistência, persistência
Carência sim essa há
Penitência será
O ponto final?
É o fim de tudo
Eu aqui sentada no bloco
Da esquina perto
Da praça
Aonde o casal enlaça os
Últimos suspiros do
Fim do dia.
É domingo
É fim de tudo.
É o fim do mundo.

Acabou-se o carnaval.

terça-feira, março 13, 2012

1/3

seu mau hálito matutino
o lençol velho da sua mãe
o cachorro lá fora latindo
te amo, 1/3

a rua clara e silenciosa
o barulho das árvores
do vento, em mim uma
sinfonia, estou barulhenta
quieta ao seu lado da
cama.
bed. bad.

eu queria estar diferente
honey
eu queria estar na tua
baby
mas nada nada me conquista
sadness


tentativa de apegar-me
enquanto você me pega
me testa e eu
brinco te fazendo
acreditar nesse amor
que ainda resta
te amo. 1/3.


eu queria ser melhor
but...
eu queria ser mais forte
fuck
eu queria te amar por inteiro
mas só 
te amo 1/3.
dot

terça-feira, março 06, 2012

Qualquer coisa doida dentro mexe.

E aquela coisa.

Aquela mesmo.

Era quase uma vontade de possuir.
Mas não era.
Era quase uma história pra se lembrar.
Mas não era.
Era quase um sonho pra não dormir.
Mas não era.
Era quase uma saudade.
e talvez fosse.

Aquela coisa. Aquela mesmo.

Música inquieta,
era quase um frevo.
Algo além carnaval.
Mas não era.
Era quase um medo.
E talvez fosse.

Mas, era o que então?
Aquela coisa.
Que se nem é aquela,
Pois jaz ainda aqui,
Se fazendo sentida.
Aquela coisa, então,
Nem era aquela.
Pois é esta. Esta coisa
Que eu nem sei mais o que é.
Mas está aqui. E é.

segunda-feira, fevereiro 27, 2012

Lagarto

Lagarto
Você parece um
Lagarto
Larga tudo
Alarga-se no mundo
Larga 
e amarga-me, ladra-me.
Você parece imundo
Mas logo se
Transforma
Pois não passa de 
Um lagarto
Muda de cor
Muda de forma
Larga tudo
E logo me transforma
Me transborda
Como água ou pedra
Imóvel no meu ser
Que de nada larga
A espera, a espreita
Feita somente
Para o lagarto
Largar-me.

(humildemente insipirado no nome do bloco de carnaval, "seu lagarto mama")

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

Egotrip

No espelho vejo uma imagem
que em mim não reconheço.
No espelho, uma vaidade,
aquela em que padeço.
Queria me transformar em várias
só para não ser a sombra
daquilo que pareço.

Queria ser bela em todas 
as facetas
Queria passar por todas
as caretas
Queria ser mulheres, anjos,
infernais ou ninfetas.
Queria impressionar-te
por tantas em mim.
Ah! Como eu queria!

E depois só ser, 
longe do que padeço,
perto do que mereço.
além do que reconheço.

Ser tua.  

segunda-feira, fevereiro 13, 2012

Helena.

Ela nem sabia direito o como, nem o quando, mas desde cedo começou a inventar. O mundo real não lhe interessava muito. Inventou amigos e animais de estimação. Os pais diziam que era coisa de criança, “mania, já já passa!”, mas nunca passava.
Cresceu, se tornou muito bonita. Mas com aquele tipo de beleza que se só se prestarmos atenção nos desperta interesse, de resto, passava batida. Ela inventava tanto que pouco sabia do mundo, no colégio decorava as resposta depois dos anos de reprovação por tentar criar respostas para tudo. “Não inventa, Helena!” ouvia repetidamente de vozes diversas que ecoavam durante seu crescimento.

Um belo dia de verão, decidiu inventar um amor. Amor daqueles que doiam, amor de verdade – a verdade bastava a ela. O seu amor morava longe, lá pelos lados de uma cidade perto da Sibéria, enviava-lhe correspondencias e as respostas eram precisas e cheias de um sentimento que não havia ainda nome. “Os homens amam diferente”, a sua primeira opinão. Repetia a opinião aos quatro cantos, “Os homens amam diferente! Os homens amam diferente!”. As respostas precisas dele aumentavam a certeza de que aquele amor vinha da diferença inalcansável da maneira de amar dele. Aquele amor – inventado, mas isso é segredo que nem ela lembra mais – havia feito-a descobrir que amava o inlcansável. Tai o porquê de tanto inventar.
As poucas experiencias que teve – não inventadas – foram um fracasso. Helena não sabia nada, apenas concordava e sonhava. Os homens a amavam calada. A olhavam e enxergavam a beleza, mas quando começava a falar, ninguém entendia, ninguém queria ouvir tanta coisa que não existia.
Os anos passaram, as correspondencias da Sibéria eram seu único motivo de estar viva. Cansada demais para inventar algo a mais. Ela se agarrava a aquele amor inventado e esperava a prometida visita de seu amado. O único que a entendia, o único que queria ouvir suas histórias e vivê-las –assim que possível -, o único que a enxergava bonita e que era preciso, diferente dela, era preciso e quase perfeito, pois até seus defeitos se encaixavam com os dela.

Verões se passavam,  invernos frios vieram e a única coisa com que se preocupava era com a temperatura da Sibéria. Como estaria ele? Soluçava e chorava. Chorava até não poder mais e pingava colírios nos olhos para que não ressecassem. As primaveras, então, eram tortuosas, queria mostrar como era lindo seu jardim, quantas flores coloridas tinha, mas ele, ele apenas respondia “quem sabe um dia...”. Anos, estações de ano, choros e colírios, agora ela era velha. O amor era velho, mas resistia. Amor velho é tão sincero que já deixava de ser inventado, virava cisma. Amor de velho é cismado, tanto que nem pensa mais nele, apenas é, apenas está lá.

O dia estava muito bonito, os olhos dela – azuis – brilhavam na imensidão de seu jardim colorido sob o sol ardente. Quando de repente, um barulho na porta. Ninguém ia visitá-la assim, as primas do sul sempre avisavam com antecedencia e as sobrinhas, as sobrinhas provavelmente casadas, já esqueciam dela, cuidando dos filhos. Estranho. Barulho na porta, era sim uma batida, forte, precisa. “Helena, helena! Pare de inventar coisas que podem te assustar” pensava um pouco desesperada com a sua lucidez momentânea. Toque na porta, o terceiro e menos forte, quase apagado. Ela foi atender. Ao abrir a porta poucas palavras foram necessárias. Era ele. Alto, loiro – mas já grisalho com a velhice, olhos pretos e precisos e mãos grandes. Era ele. Um leve sotaque e estava morto de fome com certeza, fechou logo a porta, queria guarda-lo para ela, o amor deles não era merecedor de comentários de vizinhos na feira do amanhã.
Conversaram tanto, tanto, tanto que tudo aquilo que ela guardava sobre o seu mundo ganhava vida como se estivesse encenando as palavras, ele a ouvia, ria, fazia breves comentários e se apaixonava pela linda imagem da velha Helena. Ela via ele se apaixonar e se apaixonava pela paixão dele. Dançaram, dançaram juntinhos, justo ela que jurava que havia esquecido os passos. Deitaram-se juntos abraçados, ele repetiu o tamanho de seu sentimento, até nomeo-o, coisa que ficou entre eles. “O amor de homem é diferente”, ela repetiu feliz.. “Eu vim te buscar, lá o inverno é frio, mas a gente se ajeita.”. Amou-o mais, mal conseguia acreditar na vida nova que a esperava. Fechou os olhos e diante do cansaço da vida inteira que havia ocorrido naquele dia, ela nunca mais os abriu. Helena fechou os olhos pra sempre na imensidão do seu amor inventado.

sexta-feira, janeiro 20, 2012

bem teatral.

(Abrem-se as luzes. Todas em tons quentes. Pelo chão, papéis vermelhos picotados, que, se olharmos de cima, formam um coração. Uma menina entra com seu vestido, arco, ar e sofrimento de menina. As luzes lentamente se tornam azuis. Quando o palco está naquele ponto em que sabemos que sonhos ou tristezas virão, a garota começa a correr em círculo. Ela corre ansiosamente, ou melhor, desesperadamente. A garota corre em círculos desesperadamente, falando - em diferentes tons - declarações de amor. A menina para, encaminha-se para coxia da onde trás um toca-discos, sim, é assim bem teatral. Ela coloca um disco e começa a tocar "Unforgettable" com Diana Washington. A menina começa a dançar sozinha, mas sente, sente não, mostra que sente o perfume, o hálito, as unhas dele sob seu corpo. Vozes em off entram.)

"Coitada da menina!"
"Tão pronta para dar certo na vida..."
"Um doce!"
"Endoidou..."
"A menina ficou maluca."

(O som da vozes aumenta, cada vez mais e mais vozes entram, até que a menina berra e cai sob os papéis picados vermelhos. Deita ofegante. De repente, levanta sem esboçar expressão qualquer de pena ou loucura e fala)

"Repete a música"

(Deita e levanta poucos segundos depois, com um pouco mais de expressão fala.)

"Abaixa um pouquinho só"

(O operador de som a obedece. Ela fala.)

"O que mais se pode fazer com um coração partido, senão arte? O que se pode fazer com esse inconstante e ansioso, ansioso não, desesperado gostar, que não cabe mais dentro do autor da peça além de uma cena clichê com uma atriz dramática? Não tenham pena de mim, do autor, nem da personagem. Jantem felizes, comam pizza, hoje é domingo. Brinquem com seus cachorros e vejam o finzinho do Fantástico. A dor é minha e tão somente minha que prefiro que não se envolvam. Apenas aplaudam. Por favor, aplaudam, afinal o que se pode fazer diante dos desencontros de sentimentos, senão fechar as cortinas e esperar por algo mais alegre na próxima temporada?"

(A menina dança, as luzes vão descendo lentamente enquanto as cortinas vão se fechando.)

quarta-feira, janeiro 11, 2012

paradoxo banal

Gabriela Giffoni não sabe escrever em terceira pessoa.
Vejam só.

segunda-feira, janeiro 09, 2012

Cheetos ou Fandangos

Dois mil e doze mal começou e o bombardeio mental de cobranças, decisões e questões - pós deslumbre pré fogos sob promessas de uma "vida melhor nesse ano" -está ai. Ou melhor, aqui.

Prometi que não vou começar o ano já reclamando. Mas, quero registrar que ao sentir o cheiro enjoativo do Cheetos de requeijão hoje não pude evitar a sensação estranha, o embrulho no estomago - que se sentia velho - ao ter um Flash Back (em que me via entre pequenas mãos que disputavam a atenção da 'tia' da cantina atrás do fedorento salgadinho laranja) e de uma saudade instaurada por cheiros e tempos que não voltam mais.

Velhos tempos, a vida era fácil e o conflito era "Cheetos ou Fandagos?". Qualquer coisa mais grave, a culpa era dois pais, havia o colo seguro da avó e fácil acesso aos mimos de 'tias' e 'tios' que já nem lembro o nome.