quinta-feira, agosto 27, 2015

semi conhecidos

ela está vindo na minha direção. não nos conhecemos direito, mas já sentamos no bar com amigos que apoiaram conversas em que nós talvez tenhamos soltado uma risada de um comentário quase engraçado dela ou meu. não somos pessoas engraçadas. ou ela não entende meu humor e nem eu o dela. então quando poderíamos ser engraçadas, somos patéticas como formigas quando jogamos desodorante nelas. por sabermos desse risco desde os dezesseis anos, sabemos fazer comentários ácidos. treinamos para isso desde os dezessete anos quando eu sai da depressão e ela fez a primeira tatuagem que tem alguma coisa ligada ao senhor dos anéis. não que eu goste de classificar, que é antiquado para alguém cool 2015, mas trata-se desse tipo de pessoa e ela está vindo na minha direção. ainda distante, a rua se torna cada vez menos longa e eu já a reconheci. e ela também já me reconheceu. começo a suar nas axilas e sinto meu cheiro. não sei se mantenho o olhar nela. não há motivo algum para fazer festinha. são oito e quarenta da manhã. mesmo que fosse mais tarde não haveria motivo, mas as oito e quarenta não tem nem como forçar a barra. abrir os braços ou o sorriso sem acreditar é transformar um cumprimento num ato triste de alguém desesperado e ansioso. lembro da minha depressão e entendo. gosto mais de mim por ela. respiro e assumo super cool 2015: não sei lidar com semi-conhecidos. nunca soube. é coisa de signo, pais separados, filha única, etc. os meus olhos ficam perambulando como se eu tivesse algum problema no meu globo ocular que não mantivesse a minha iris no lugar. consigo ser esquisita pra caralho às vezes. é assustador. mas eu lembro da tatuagem dela e ganho forças a partir daquela fraqueza. o que é o ser humano além de um bichinho que pensa e é confuso por isso, heim? já posso olhar e dar um sorriso simpático. ela está com a mão no rosto. eu não tinha percebido isso. ela também é esquisita pra caralho! cara, vem cá me dá um abraço. ok. dois beijinhos. "desse lado não!" dai a minha falta de tato que me ajuda nos comentários ácidos chega à loucura por ainda não serem 10 da manhã e eu pergunto "nossa". sim, eu falo esse "nossa" meio nojento, meio surpreso, meio com compaixão. "nossa, o que houve com o seu rosto?". é só a boca dela que está machucada. mas eu consigo destruir a lateral esquerda daquele ser humano em rápidos segundos de inadequada simpatia. ela coloca o rosto pra trás e respira como quem tirasse do ventre uma paciência que nem sabia que estava ali e diz com o subtexto "tá tudo bem, tá tudo bem": "é herpes!". eu penso de cara que ela pensa que eu penso que poderia ter pego herpes pela proximidade de nossos rostos na hora do beijinho. "desculpa! eu não quis...". eu digo como se eu tivesse perguntado por uma mãe que havia acabado de morrer ou qualquer outra tragédia. eu transformo ela em um ser que precisa de ajuda e a mim na madre teresa de Calcutá com meus olhos cheios de compaixão e uma bolsa cheia de zovirax. ela responde: "não tem importância". cara, ela é muito cool. eu também! "não, não tem a mínima importância". ela não vai embora. esquisita pra caralho, ainda mais com essa mão no rosto. eu vou, mas mando um "boa sorte", aceno como se fosse aquela tia que todo mundo odeia e viro as costas para ela, que fica alguns minutos parada absorvendo aquela informação cretina. não será um dia fácil para nenhuma das duas.

segunda-feira, agosto 24, 2015

rua cândido mendes

finalmente entendo meu espaço no bairro
quando acho uma anotação de canto
de página num livro que lia
quando pensava um tanto em você
me contando sobre sua infância no Para
ou em Paris e mais uma daquelas mentiras
que misturadas nas minhas memórias
embaladas
pelo Benny Goodman que nunca
ouvimos juntos mas me fazem ter um espaço
bem claro no bairro como alguém que viu algo
além de gorilas atrás das grades ou neve na
Madison Square. amar você nunca me alívou
uma dor de dente ou trouxe se quer
algum conforto. mas se eu encontro um ps
escrito sem recursos de equilíbrio pois devia
estar em algum ônibus em movimento um ps
que dizia apenas, entre aspas depois de
um trecho de quatro linhas
sublinhado à lápis:
isso é ele

 e por ele ter sido você
 as luzes acesas num quarto pequeno
da Glória as quatro e vinte da manhã
são reais e enormes. também os anéis
de saturno, pará, paris, e a incrível
ciência por trás da água que precipita e condensa.

quarta-feira, agosto 19, 2015

"n¨¨~iu9"

chegou aos ouvidos da única partícula de vida que após milênios se formou em marte que num planeta vizinho explodiam-se creches, feiras e casas, mesmo que dentro tivesse um avô recuperado do câncer cuidando do neto mais novo que descobria a diferença entre dromedários e camelos bem naquele instante do pôu!. chegou aos ouvidos do micro little et que um homem vestido de mulher foi espancado até a morte por um homem vestido com as roupas do filho da patroa da sua tia crente que o criou depois que a mãe fora assassinada friamente por pms numa tarde de quarta antes do jogo do vascão. a partícula fofis ficou sabendo que em território em que augusto silva filho de antonio silva e pai de aluísio silva sempre passaram fome, os bittencourt desviam milhões alguns meses do ano ou aprovam leis em que o direito de se falar e gozar do que se pensa são atos criminosos.


a única partícula de vida
desligou o rádio
 pensou "tá doido"
(segundo estudiosos isso em marte se escreve "n¨¨~iu9")
e resolveu desaparecer de vez.

quarta-feira, agosto 12, 2015

aniversário de namoro

eu falo que você fez uma coisa errada
e você diz que não fez

eu pego a coisa que ainda está errada
pois eu deixei assim pra te mostrar
a coisa
e falo: "olha aqui ó".

você olha a coisa e faz não com a cabeça
aponta pra janela
onde a noite se espalha
e fala: "olha aqui ó".


eu juro que se não fosse louca por você, te mataria com muita violência