sábado, setembro 18, 2010

Subindo

Henrique, 22 anos, faculdade publica de engenharia, áries.
Rafaela, 19 anos, faculdade publica de cinema, cabelos vermelhos, touro.
Prédio: São salvador. Bairro: Flamengo. Tempo: chuvoso. Mês: setembro. Hora: 22:46

Rafaela tinha acabado de sair do curso de italiano, quando cruzou com Henrique na portaria do prédio, que voltava do estágio na Vale. Rafaela teve vontade de lembrar a ele de quando foi lhe mostrar o patinete que tinha ganhado quando eles tinham por volta dos 10 anos, mas, desde a adolescência que não se falavam. Aos 15 anos, ele deixou de ser o príncipe encantado da menina Rafaela que estava virando mulher e se apaixonando por homens com ombros mais largos que os de Henrique e que também ouviam “Nirvana” e usavam calças coloridas alternativas.
Esperavam juntos o elevador, os dois agiam engraçadamente educados, parecia que nunca haviam tomado banho de mangueira no play do prédio.
Henrique puxou o assunto, perguntou se ela estava gostando da Uff.

- É meio fora de mão, Niterói não tem nada haver com o que eu gosto de fazer... Mas, é uma ótima faculdade, sou apaixonada por essa área.
- Cinema, né?
- É. Você... Engenharia na UERJ?
- Isso.
- E o pessoal lá? É gente boa?
- Muito, muito...
- Há...

Os dois se olharam, ainda tímidos. Estava chovendo muito, 20 de setembro, à meia-noite se iniciava a primavera e parecia até uma chuva de verão, porém mais longa e menos cheirosa. Entraram, finalmente, no elevador.

- Décimo terceiro, né? – ela disse.
- Isso. 1302.
- Claro.
- O seu é o nono?
- 902.
- Claro.

As luzes do elevador começaram a piscar.

- É, parece que hoje vai ser dia de ficar no escuro.
- Tomara que a gente saia daqui antes disso.

Foi Rafaela falar, que o destino conspirou na contra-mão das palavras dela. O elevador para à meia-luz.

- Que língua hein – diz Henrique num tom de brincadeira.
- Não acredito nisso.
- Pode inspirar para você escrever algum curta ou coisa assim.
- É, mas...Elevador é uma coisa tão clichê, Hique.
- Hique?
- Desculpa, foi... ah... natural. – ela ri desajeitado
- Há muito tempo que ninguém me chama assim
- Nossa, isso foi muito solto. Lembra quando eu te chamava de Hiquepopotamo. Você era tão gordinho.
- Eu te chamava de Rafaguela, por você não calar a boca com suas histórias. Você tinha uma nova a cada dia... E nem fazia questão de dar um sentido a elas.
- Você caia direitinho em todas elas...
- Eu gostava da maneira que você contava, era tão detalhista... Só que nunca ficava quieta... Sempre alguma coisa precisava ser falada...
- Ah, haha, eu era muito fofa.
- Era sim.
(silêncio. Os dois ficam se olhando e fingindo não se olhar)
- Você me chamou de Rafabela também, uma vez.
- Num dia que você tava chorando, eu lembro disso... O que tinha acontecido naquele dia? Você chegou a me contar?
- Acho que eu tinha brigado lá em casa.
- Quando a gente parou de se falar?
- Não sei, adolescência. Por que a gente parou?
- Sei lá, eu achava que você não queria mais
- Você sempre me achou maluca, né.
- Você pintoua o cabelo de azul e começou a andar com camisões do Led Zeppelin
- Você parou de falar comigo antes disso, tenho certeza.
- Como você tem certeza?
- Eu tinha uma quedinha por você. Tinha uns 13 anos e você me ignorava, me achava tão inferior à você que ficava na minha.
- Inferior, Rafa?
- É. Você era meio meu ídolo, sabe.
- E depois você começou a gostar de Led Zeppelin e ter como ídolo o Kurt Cobain.
- É. Fazer o que...

Os dois ficam mudos, se olham e desviam o olhar algumas vezes.

- A gente não pode mais ficar sem se falar... – Diz Henrique
- Não mesmo.

Se calam de novo. Ela faz um carinho brincando no rosto dele e fala:

- Acho que a gente vai ter que interfonar por Seu Edson tentar tirar a gente daqui.
- É.
- Se quiser, um dia desses, a gente pode jogar WAR.
- Você chora quando eu ganho de você, não dá certo, Rafabela.
- Só que, você vai ver, quem vai ganhar de você agora sou eu.
- Ta desafiado, então.

As luzes começam a piscar e o elevador faz um barulho que dá indícios de que está voltando a funcionar.

- Aparece lá em casa mesmo, Rafa.
- Sim, prometo. Adoro esses momentos nostálgicos. São inspiradores...
- Não são clichês demais para uma cineasta de cabelos vermelhos?
- Nunca.

O elevador volta a funcionar. Chega o nono andar, quando Rafaela sai, os dois se abraçam forte e se mantém com as mãos dadas conforme vão ficando distante o bastante para estas se soltarem.
Ao chegar em casa os dois pensam na infância e no porquê de nunca mais terem tido uma conversa como a que haviam acabado de ter.
A luz apaga de novo. Alguns minutos depois, na porta de Rafaela tem alguém batendo. É Henrique:

- Acabou a luz aqui também?
- Hoje é dia de ficar no escuro, Hique.

5 comentários:

  1. acho bem tosco chamar alguem de hiquepopotamo. e maldade com o menino gordo tambem. mas eu te amo viu gabipopotama?

    ResponderExcluir
  2. Nono andar é o andar das pessoas fodas.

    ResponderExcluir
  3. aiai, adoro esses contos românticos que só nos levam a pensar que nada na realidade é assim :/

    ResponderExcluir
  4. oitavo andar rules! e gab, que coisa é essa com cabelo azul menina? daqui a pouco aparece na escola assim, aiai. ahahah

    ResponderExcluir