segunda-feira, setembro 28, 2015

como desaparecer completamente aos poucos

Joana entrou num corredor escuro, abraçou os joelhos contra o peito até poder engolir suas ligações. era seu aniversário de vinte anos. sua primeira festa surpresa. os convidados continuaram dançando e até cantaram parabéns mesmo depois que Joana desapareceu.

Vicente resolveu começar a dieta do limão. no primeiro dia você come um limão logo pela manhã. no segundo, dois. no terceiro, três. e o número de limões só aumenta ao longo dos dias. no 57º dia, Vicente desapareceu.

Kim era o filho mais novo de uma família de comediantes premiados. depois de muito preparo, ele contou sua primeira piada. ninguém riu. nem mesmo Anabela, que ria de tudo e era tão bonita. Kim desapareceu na hora.



COMO DESAPARECER COMPLETAMENTE AOS POUCOS

1. não corra risco de ser minimamente fundamental

1.1- a intensificação num grupo de pessoas te faz criar memórias, contexto para existência e atrelamento como soldado indispensável de um batalhão, por exemplo. seria impossível a um beatle desaparecer.
1.2- circule entre muitos ambientes diferentes numa só noite ou dia. nos ambientes, lembre de circular pelos grupos. não deixe que os assuntos, extrapolem para muito além do "tudo bem?"
1.3- evite envolver-se com pessoas generosas e/ou pacientes. eles não sabem o que fazem. nada pior que a insistência de um outro no indivíduo que almeja o desaparecimento.
1.4- a não intensificação de algum tipo de relação social garante que o indivíduo possa ser bastante dispensável em todo e qualquer ciclo social. não ser imprescindível na vida de um outro alguém facilita o desaparecimento. pois, no processo, corre-se menos riscos de algum outro indivíduo notar a falta de algum membro, sentimento ou opinião do desaparecido. até a própria presença do agente do desaparecimento vai custar a ser percebida como ausente.
1.5- não leve a sério quando alguém lhe disser "você está se sabotando". sorria e diga "to nada".
1.6- não fale e, preferencialmente, nem saiba de algum assunto o bastante para desdobrar-se sobre ele por algumas horas.
1.7- evite ter camadas. elas só atrapalham.

resultado: o desaparecimento gradual daquilo que diferencia seus olhos e umbigo. o fígado e a bile também desaparecem em alguns casos.


2. não tenha personalidade de fácil definição ou memorável

2.1 - para isso, é imprescindível ter a capacidade camaleônica de sempre se adaptar ao meio, como forma de proteção. questionar, expor-se ou diferenciar-se num ambiente, impossibilita o desaparecimento.
2.2 - não tenha características ou gostos imutáveis ou irredutíveis. é importante esconder ao máximo possível referências. não tenha obsessões, nem ídolos.
2.3 - não pratique nenhuma forma de arte a ponto de formar um estilo ou seguidores.
2.4 - não estude seu mapa astral ou faça análise. não se conheça. é muito importante que seu nome não seja atrelado a nenhum tipo de arquétipo interessante.
2.5 - a não associação da figura do desaparecido a uma imagem nítida ou descrição obvia, facilita para quando forem - se caso forem - atrás do indivíduo no processo de desaparecimento, não conseguirem encontrá-lo. o indivíduo com talento para o nada específico, tende a ser visto como bom. suas opiniões são superficiais, assim como suas possíveis indignações.
2.6 - tenha senso de humor passivo, sempre complementar ao de alguém mais notável. anule qualquer tentativa de sarcasmo, ironia ou destaque por meio do humor destrutivo, escape fácil para a desistência.
2.7 - a cor de seus cabelos não pode mudar.
2.8 - não tenha um bar favorito.


resultado: o desaparecimento de boa parte de olhos, assim como a visão e a gargalhada.


3. ignore a potência e a clareza de sua voz

3.1 - ter uma péssima dicção é importantíssimo. faz com que as pessoas desistam de entender o que você está querendo falar.
3.2 - adquira uma incapacidade de falar alto. solte muito ar no começo das frases que ajuda.
3.3 - é necessária a falta de clareza naquilo que diz. não estamos falando de complexidade, mas sim de incerteza e, principalmente, nenhuma elaboração ou embasamento prévio da fala.
3.4 - nunca defender algo, alguém. é de extrema importância não se ter partido ou senso de justiça para desaparecer.
3.5 - não cantar. jamais cante para alguém.

resultado: desaparecimento da voz, dos bônus salariais e, gradualmente, da própria boca e estômago.


4. considere seu sexo como mera peça de encaixe

4.1 - seu cheiro não pode ser lembrado. nem como ruim, nem como bom. elimine os perfumes. mas, também tome banho sem entusiasmo. repita para si: isso é só um pênis ou isso é só uma vagina. use termos técnicos. apelidos humanizam.
4.2 - não tenha um corpo notável. nem em cuidados, nem em especificidades. o não conhecimento e apropriação do seu corpo, facilita ao desmembrar-se. um corpo flácido, sem músculos, expressão ou força é o ideal para quem quer desaparecer rápido.
4.3-  a total desconexão com quem se propõe a te fazer gozar, também impede o gozo do outro muitas vezes. no caso da desconexão falhar, fale sobre sentimentos como quem arrota depois de uma coca - cola. não finja orgasmo, finja (imponha-se) o tédio. e torne-o uma arma a anulação do prazer do outro. nada como sentimentos vazios, um corpo mole e progressão da apatia sexual para incentivar ainda mais ao desaparecimento.
4.4- não procure coisas novas. seja técnico, direto. a inovação pode trazer a surpresa e assim, um prazer que antes era desconhecido. o prazer é o maior inimigo do desaparecimento.
4.5- evite o exótico ou erótico.

resultado: desaparecimento do tato, seguido por gradual desaparecimento das mãos, pescoço, virilha, útero (fem) e, as vezes, dos orgãos sexuais.

5. não tenha ideias.

5.1 - ter ideias pode culminar querer mudar algo, alguém, um sistema. te incentiva a dar continuidade. a continuidade impede o desaparecimento. para alguns ela até garante a imortalidade. tenha cuidado.
5.2 - ideias podem virar sonhos e ideais. qualquer resquício de romantismo impossibilita o desaparecimento das sobrancelhas e da curiosidade.
5.3 - ideias te farão sofrer quando você tiver desaparecido e ninguém notá-las.
5.4- não discuta política. fale coisas do tipo:"sempre foi assim, sempre será." até você acreditar nisso mesmo.
5.5- não seja contra nada. nem a favor.
5.6- não tenha coletivos.
5.7- seja mais um que trabalha para alguém. e nunca seja sequer notado por esse alguém.
5.8- não tenha projetos. se tiver, esconda-os bem.

resultado: desaparecimento do tronco/peito, do tipo de letra e da sola do pé.

6. pareça natural

6.1 - nada de encontros a dois.
6.2 - camufle. finja que tudo flui. diga sempre sim.
6.3 - se caso tiver parentes próximos, "amigos" interessados e/ou participe de algum grupo de reabilitação é de extrema importância que você saia de casa, finja estar bem, finja estar levando a sua vida, finja se importar com alguma coisa (pouco relevante)
6.4 - ao perder o rosto, use máscaras convincentes para que ninguém perceba e evite seu caminho ao desaparecimento.

resultado: desaparecimento das pintas, do modo de piscar, dos vícios detectáveis e da impressão digital.


7. esqueça.

7.1 - não guarde fotos, vídeos, fatos, histórias.
7.2 - faça pouco dos detalhes. não trate nada como especial ou único. pois não é e nem pode ser.
7.3- confunda a própria imagem que você tem de você.
7.4- preferencialmente não lembre do que um outro já fez com ou por você. isso ajuda ao mais importante: não ame nada e ninguém. já mentir que ama é essencial para que ninguém te encha o saco.

resultado: os pulmões aos poucos param de funcionar e sua sombra desiste de você.

8. ao final de tudo isso:
8.1 - coloque um lençol em cima de você. e saia pela rua.

quinta-feira, setembro 10, 2015

Dia Internacional da Prevenção ao Suicídio

Era Dia Internacional da Prevenção ao Suicídio, mas Teodoro não sabia disso. Não teria tido a péssima ideia de tentar realizar o seu sonho de se matar, depois que concluiu que era esta sua missão na vida, se soubesse que esse dia existia e tava existindo bem naquela manhã em que ele martelou um gancho no teto de seu conjugado que não cheirava nem um pouco bem, pois Sâmila, a faxineira, faltou duas terças seguidas. Teodoro, que se recusava acreditar em milagres, não poderia pensar que sua vizinha de oitenta e nove anos, surda, cega de um olho e cuja a língua tinha pelos que cuspiam arroz quando se cumprimentavam no elevador, poderia passar a escutar e reclamar com o porteiro - cuspindo arroz. arroz infinito. ela só come arroz. - do barulho infernal do martelo de Teo em seu chão.

O porteiro que lia John Green, ex-viciado em loló e em transar com mulheres semi-idosas, desconfiava da vontade de desaparecimento da voz que mal saia de Teodoro ao dizer "bom dia, seu Pedro" e resolveu conferir o apartamento 705. Teodoro estava testando o nó da corda, ouvindo Bola de Nieve, quando o porteiro resolveu intervir. Teodoro com a corda apoiada em seu pescoço, se comunicou com Pedro pelo espaço que a correntinha da porta permitia. Pedro aprendeu com o vício a mentir de forma compulsória e inventou uma desculpa de que o encanamento tinha vazado e apontado para casa do vizinho. Para Teodoro, o porteiro parecia o Rappa, o vocalista da banda "O Rappa". Era meio novo, meio velho, meio negro, meio branco, meio consciente, meio lesado, não tinha estilo respeitável, mas tinha estilo, era rude, mas era doce. Teodoro pensou algumas vezes em virar amigo do porteiro, só que sentia que qualquer tentativa de amizade quando 1- se tem mais de 30 anos. (Teodoro tem trinta e dois); e 2 - a "vítima" não tem como negar a aproximação. (O porteiro tem oito horas diárias de trabalho) tendia ao fracasso ou a ser interpretado como "o maluquinho do 705".

Teodoro não conseguia tirar Pedro de sua casa. Queria transparecer que aceitava aquela invasão como algo natural, um cuidado e uma relação entre pessoas adultas que pensam em como canos podem atrapalhar a vida de um outro indivíduo. E, sim, nós, adultos, nos importamos com outro indivíduo. Depois de dezoito minutos, então, com a desculpa de comprar cigarros, Teodoro saiu prometendo voltar com um derbi azul para Pedro.

Teodoro não queria complicar a vida de nenhum motorista se jogando na frente dos carros. Pensou em pegar a bicicleta e andar naturalmente pelas ruas da cidade, pois eram grandes as formas de morrer daquele jeito. Ele ainda tornaria-se uma "porcentagem para o bem", pois levaria o assunto a girar pela internet por horas e até dias. Semanas não. O problema é que Teodoro tinha tido sua bicicleta furtada por um ladrão que dispensou seu celular antigo. Ofendido por lembrar disso, Teodoro foi andando para o metro. Sem olhar ao atravessar a rua, dando sorte ao azar. Nada adiantou. Foi comprar seu bilhete na estação Catete. Somente três reais e setenta para fazer de cinco reais um e trinta. Era caro até morrer naquela cidade, mas ele acordou na disposição. Areta e Nina, que além de terem nome de cantoras, tomarem Ayahuasca, terem cabelos verde (Areta) e rosa (Nina), fazerem trabalhos solidários e terem tido bulimia (Areta) e gravidez psicológica (Nina) na adolescência, estavam na via do metrô olhando para o próximo. Teodoro não sabia se saia correndo quando o metrô se aproximasse ou se, simplesmente, caia segundos antes do metrô passar, podendo ser pego antes mesmo de cair nos trilhos. Resolveu correr. Uma criança melecada de churros atrapalhou o seu impulso, dando tempo de Areta e Nina darem um golpe em Teodoro, seguido de alguns socos fortes - alguns desnecessários -, até ele desistir.

Do lado de fora da estação, Nina fez questão de pagar um chicabom e uma coca zero para Teodoro, mostrando o quão doce a vida poderia ser. Teodoro não queria indagar a adolescente, nem desanimá-la, mas pediu que ela listasse o que fazia a vida valer a pena. Nina disse, entre uma lista de baboseiras, sonhar. Teodoro lembrou da crise, de sua dívida de trinta mil, de seu trabalho massante, de não ter achado bonita a cidade de Roma à noite e de sua micose na parte interna da coxa. Quase vomitou. Areta disse: "ah sei lá, as coisas simples da vida". Teodoro lembrou da sua dívida de trinta mil, dos pais morando em Miguel Pereira, da sua ex-namorada que tinha o péssimo hábito de dormir com a televisão ligada e mexer na comida com a mão. Teodoro vomitou. Depois de ter tido as têmporas massageadas por Nina, enquanto Aretha tocava em seu ukulele músicas do Devendra Banhart, Teodoro conseguiu o cinismo necessário para prometer que sobreviveria àquele dia. E que no dia seguinte se lembraria de sobreviver de novo e seria assim até se tocar que seu cérebro estava sendo devorado por formigas e libélulas enxeridas.

Foi andando até a Zona Portuária, pensando ser um local fácil para "um acidente" por conta das obras, etc e tal. Nada feito. Quando finalmente um guindaste se aproximava de Teodoro, podendo esmagá-lo em trocentos pedaços gosmentos. O chefe de obras parou a operação para hora do almoço. Teodoro insistiu. Até que o notaram e pediram para ele se retirar. Foi assim o dia inteiro. Ele tentou se jogar da janela da casa de sua tia, mas seu primo, que prestou serviço militar, o salvou. Tentou roubar a arma do primo e dar um tiro na cabeça, mas ela estava descarregada e ele não sabia onde arranjar balas de revólver. Tomou doses altíssimas de remédios tarja preta, mas a validade tinha expirado. Ele subiu a pedra bonita, tentou se jogar, mas foi salvo por uma área rara de árvores fofas, onde um casal neo-hippie fumava um. Ele ingeriu quantidades estratosféricas de canela que, pelo google, em doses altas era mortífero, e só teve uma puta dor de barriga.

Pegou um ônibus na hora do rush até a ponte Rio-Niterói, reafirmando - depois de duas horas só para chegar na ponte - que sua vontade de morrer era válida, consciente e sensata. Ameaçou o motorista do ônibus com sua arma descarregada e correu para se jogar. Antes de se arremessar rumo à única coisa bem sucedida que teria feito em vida, avistou do seu lado Susana, que tinha dado impulso para se jogar direto depois de sair correndo do carro, mas bateu a barriga forte no parapeito da ponte, soltando um arroto desagradável. O barulho de filhote de monstro do Lago Ness uivando, chamou a atenção de Teodoro. Eles se olharam, disseram "oi, e ai?". Susana: "mó, bad, não to sentindo meu estômago. bati bem na boca dele". Teodoro: "tudo bem, se eu entendi o que tá rolando, daqui a pouco você não sente mais nada.". Susana: "pode crer". Teodoro estendeu a mão e perguntou se ela queria ajuda. Ela aceitou. Assim que ela subiu, ele levantou-se. Ia se arremessar, quando sentiu que abraçavam a sua perna. Educadamente, Teodoro pediu para Susana largar dos seus pés. Ela pediu desculpas. Pensou que podia pegar carona no suicídio dele e ir junto, sem ter que se jogar. Achava menos dramático e quem sabe não achariam que eram um casal de amantes fugindo da polícia depois de terem assaltado uma loja de joias de ipanema e matado uma dinossaura socialite.

Teodoro convidou Susana para dar a mão a ele. Sem últimas palavras. Sem sentimentalismo. Fizeram um trato de recusa a caretice e cretinice bem na hora de morrer. É claro que todo esse engodo deu tempo para a polícia da ponte ser acionada e chegar a tempo de se jogar em cima dos dois, evitando trânsito, constrangimento e terem que indenizar aquelas famílias. Susana e Teodoro ficaram presos na micro delegacia que fica no final da ponte. Ao final de horas de sermões, um guarda tentou ensinar a filosofia do "sim" para eles. (Que era um tipo de brincadeira construtivista em sempre responder o outro com "sim". Mesmo que sua ideia fosse oposta. Ele deu um exemplo: "se eu falo 'uau, que belo dia, que tal irmos a praia', mesmo que vocês não concordem, devem responder 'sim, que belo dia, que tal irmos a praia mas antes ficar em casa vendo um filme'. E assim seria. Para sempre".) Mesmo achando estúpido o que o guarda disse, Susana e Teodoro confirmaram com a cabeça que iriam tentar viver em barganhas de "sins" e lutariam pela sobrevivência. Eram nove da noite quando Susana apoiou a cabeça nos ombros de Teodoro, concebendo dois futuros filhos Lionel e Gilda, que se tornaria psicanalista renomada e de preço justo na região do flamengo-catete.