segunda-feira, fevereiro 27, 2012

Lagarto

Lagarto
Você parece um
Lagarto
Larga tudo
Alarga-se no mundo
Larga 
e amarga-me, ladra-me.
Você parece imundo
Mas logo se
Transforma
Pois não passa de 
Um lagarto
Muda de cor
Muda de forma
Larga tudo
E logo me transforma
Me transborda
Como água ou pedra
Imóvel no meu ser
Que de nada larga
A espera, a espreita
Feita somente
Para o lagarto
Largar-me.

(humildemente insipirado no nome do bloco de carnaval, "seu lagarto mama")

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

Egotrip

No espelho vejo uma imagem
que em mim não reconheço.
No espelho, uma vaidade,
aquela em que padeço.
Queria me transformar em várias
só para não ser a sombra
daquilo que pareço.

Queria ser bela em todas 
as facetas
Queria passar por todas
as caretas
Queria ser mulheres, anjos,
infernais ou ninfetas.
Queria impressionar-te
por tantas em mim.
Ah! Como eu queria!

E depois só ser, 
longe do que padeço,
perto do que mereço.
além do que reconheço.

Ser tua.  

segunda-feira, fevereiro 13, 2012

Helena.

Ela nem sabia direito o como, nem o quando, mas desde cedo começou a inventar. O mundo real não lhe interessava muito. Inventou amigos e animais de estimação. Os pais diziam que era coisa de criança, “mania, já já passa!”, mas nunca passava.
Cresceu, se tornou muito bonita. Mas com aquele tipo de beleza que se só se prestarmos atenção nos desperta interesse, de resto, passava batida. Ela inventava tanto que pouco sabia do mundo, no colégio decorava as resposta depois dos anos de reprovação por tentar criar respostas para tudo. “Não inventa, Helena!” ouvia repetidamente de vozes diversas que ecoavam durante seu crescimento.

Um belo dia de verão, decidiu inventar um amor. Amor daqueles que doiam, amor de verdade – a verdade bastava a ela. O seu amor morava longe, lá pelos lados de uma cidade perto da Sibéria, enviava-lhe correspondencias e as respostas eram precisas e cheias de um sentimento que não havia ainda nome. “Os homens amam diferente”, a sua primeira opinão. Repetia a opinião aos quatro cantos, “Os homens amam diferente! Os homens amam diferente!”. As respostas precisas dele aumentavam a certeza de que aquele amor vinha da diferença inalcansável da maneira de amar dele. Aquele amor – inventado, mas isso é segredo que nem ela lembra mais – havia feito-a descobrir que amava o inlcansável. Tai o porquê de tanto inventar.
As poucas experiencias que teve – não inventadas – foram um fracasso. Helena não sabia nada, apenas concordava e sonhava. Os homens a amavam calada. A olhavam e enxergavam a beleza, mas quando começava a falar, ninguém entendia, ninguém queria ouvir tanta coisa que não existia.
Os anos passaram, as correspondencias da Sibéria eram seu único motivo de estar viva. Cansada demais para inventar algo a mais. Ela se agarrava a aquele amor inventado e esperava a prometida visita de seu amado. O único que a entendia, o único que queria ouvir suas histórias e vivê-las –assim que possível -, o único que a enxergava bonita e que era preciso, diferente dela, era preciso e quase perfeito, pois até seus defeitos se encaixavam com os dela.

Verões se passavam,  invernos frios vieram e a única coisa com que se preocupava era com a temperatura da Sibéria. Como estaria ele? Soluçava e chorava. Chorava até não poder mais e pingava colírios nos olhos para que não ressecassem. As primaveras, então, eram tortuosas, queria mostrar como era lindo seu jardim, quantas flores coloridas tinha, mas ele, ele apenas respondia “quem sabe um dia...”. Anos, estações de ano, choros e colírios, agora ela era velha. O amor era velho, mas resistia. Amor velho é tão sincero que já deixava de ser inventado, virava cisma. Amor de velho é cismado, tanto que nem pensa mais nele, apenas é, apenas está lá.

O dia estava muito bonito, os olhos dela – azuis – brilhavam na imensidão de seu jardim colorido sob o sol ardente. Quando de repente, um barulho na porta. Ninguém ia visitá-la assim, as primas do sul sempre avisavam com antecedencia e as sobrinhas, as sobrinhas provavelmente casadas, já esqueciam dela, cuidando dos filhos. Estranho. Barulho na porta, era sim uma batida, forte, precisa. “Helena, helena! Pare de inventar coisas que podem te assustar” pensava um pouco desesperada com a sua lucidez momentânea. Toque na porta, o terceiro e menos forte, quase apagado. Ela foi atender. Ao abrir a porta poucas palavras foram necessárias. Era ele. Alto, loiro – mas já grisalho com a velhice, olhos pretos e precisos e mãos grandes. Era ele. Um leve sotaque e estava morto de fome com certeza, fechou logo a porta, queria guarda-lo para ela, o amor deles não era merecedor de comentários de vizinhos na feira do amanhã.
Conversaram tanto, tanto, tanto que tudo aquilo que ela guardava sobre o seu mundo ganhava vida como se estivesse encenando as palavras, ele a ouvia, ria, fazia breves comentários e se apaixonava pela linda imagem da velha Helena. Ela via ele se apaixonar e se apaixonava pela paixão dele. Dançaram, dançaram juntinhos, justo ela que jurava que havia esquecido os passos. Deitaram-se juntos abraçados, ele repetiu o tamanho de seu sentimento, até nomeo-o, coisa que ficou entre eles. “O amor de homem é diferente”, ela repetiu feliz.. “Eu vim te buscar, lá o inverno é frio, mas a gente se ajeita.”. Amou-o mais, mal conseguia acreditar na vida nova que a esperava. Fechou os olhos e diante do cansaço da vida inteira que havia ocorrido naquele dia, ela nunca mais os abriu. Helena fechou os olhos pra sempre na imensidão do seu amor inventado.