segunda-feira, maio 16, 2011

Solidões

(Música 1. Luz fria. Cenário: poltrona, mesa, livros, rádio, jarra d’agua com copos. Quando a cena inicia-se há um homem executando uma ação contínua que é interrompida por alguma coisa como um livro fora do lugar, a segunda ação é interrompida por outra coisa que quando chega ao fim leva o homem a sentar-se na sua poltrona. Luz abaixa, quase BO. Luz acende, nisso as ações se repetem, tendo como diferencial que dessa vez, antes de se sentar na poltrona o homem troca a estação do rádio. Música 2. Ele permanece imóvel por uns segundos. Barulho na coxia. O homem olha para tentar detectar o que é. Volta a posição inicial até ouvir os gritos da mulher)

Ela – (da coxia) Abra a porta! Por favor, abra a porta! Por favor!
(ele vai abrir sem entender muito, porem com passos firmes.)
Ela – O senhor pode me deixar entrar? (entrando)
Ele – Por favor...
Ela – Obrigada. Obrigada (lhe da um beijo). Eu não sei nem como agradecer...
Ele – Quem é a senhora? São quase duas da manhã e...
Ela –O senhor poderia me ver um chá?
Ele – Me desculpe, mas eu nem lhe conheço.
Ela – Um copo de água com açúcar e eu lhe conto detalhes sobre a minha pessoa.
Ele – (indo buscar um copo d’agua) Não quero saber de detalhes, quero  apenas saber o que a faz bater estupidamente na minha porta a essa hora da noite.
Ela – Não precisa ser indelicado, vou embora de manhazinha.
Ele – De manhã?
Ela – É! Não posso me manter sozinha dessa forma. Deixa eu tentar explicar: Estou sofrendo de um desespero que nunca havia sentido antes. (busca palavras) Um infradesespero. Isso. Um tipo provisório de desespero.
Ele – (desdenhando) Sei. Uma impaciência.
Ela – Não! Bem mais do que isso...
Ele – (sugestivo) Uma angustia?
Ela – Talvez menos, não é algo que possa durar muito tempo.
Ele – E no que EU posso lhe ajudar?
Ela – Converse comigo. Sei lá, só não quero ficar sozinha naquele lugar.
Ele – E daí quer ficar aqui?
Ela – Sim. (ele faz que quer falar algo, mas ela interrompe) Ah senhor, não quero ficar sozinha comigo mesma, não fui preparada pra isso, sou diferente. Pra mim, estar sozinha é comparável a uma euforia que eu não consigo lidar. É como... A chegada de uma carta... Um telefonema no meio da noite... O subir num palco sozinha... A chegada de uma mulher.
Ele – Você quer passar a noite com um homem que nem conhece direito?
Ela – Não importa isso, eu já gosto de você, sinto que é uma pessoa legal.
Ele – Sente?
Ela – Sinto. (brincando) Ou por acaso é um monstro?  Um dragão que protege seu castelo e que não deixa ninguém se aproximar?  De qualquer forma, me ensina como lidar com essa vida dentro de um castelo tão vazio...
Ele – O vazio é algo transitório.
Ela – Transitório definitivo para alguns.
Ele – Quer me analizar agora?
Ela – Não.
Ele – Fique sabendo que eu posso estar rodeado de pessoas quando eu bem querer, não fique se achando superior.
Ela – Como é a noite? Dormir sozinho?
Ele – Bom. A cama fica com espaço.
Ela –Me ensina?
Ele – O que?
Ela – A ser feliz sozinho.
Ele – Nunca pensei nisso, quando eu pensar eu lhe dou um curso, pode deixar.
Ela – Estou falando sério.
Ele – Você quer dormir aqui na sala ou prefere a suíte principal?
Ela – Pode ser aqui.
Ele – Ótimo. Irei lhe trazer uma coberta.
(Ela o abraça.)
Ela – Não precisa fugir de mim, eu vou embora daqui a poucas horas. Prometo.
(Eles se olham, ela vai até ele e o puxa pelas mãos)
Ela - Posso só te pedir mais uma coisa? (Música 3) Fique aqui comigo até de dia? Podemos dançar! (cantarola) Aqui vamos ficar juntos diante das possibilidades do pecado e do esquecimento. A noite é uma criança! (ri) Vem! Encosta aqui comigo, abraçado como velhos amigos ou apenas na mesma respiração como dois 
desconhecidos numa noite suja! Deite no meu peito e desenrole meus cabelos...!

(Quando ela acaba de falar, os dois estão sentados; se olham, se beijam, ele deita sob o colo dela e lá fica. Música Alta. Luz apaga aos poucos. BO. Quando a luz reacende, o homem está sozinho, primeiramente estranha - música para - a ação inicial recomeça, no meio do ato ele entra em desespero e dá um berro. Música 4. BO.)

17

chuva, suor e cerveja.