sexta-feira, outubro 29, 2010

O (não tão) Discreto Charme da Burguesia

A cena começa com Laura, Edgar, Catarina e André sentados à mesa. O clima é totalmente blasé e todos são super educados e formais, até mesmo os casais entre si.

Laura: Sabiam que Júlia foi aprovada na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Catarina: Medicina?

Edgar: Engenharia, quer seguir os passos do pai.

Laura: Eu e Edgar estamos tão contentes, não é querido?

Edgar: (olha a com cara de impaciência) Sim, sim.

(Silêncio. Os quatro trocam sorrisinhos. Edgar é o mais inquieto e incomodado com o silêncio)

Edgar: E você, André? Como andam as boas novas da Petrobras?

André: Jóia.

Catarina: André foi convidado para estudar tecnologias novas de extração do pré-sal em Berlin, no fim desse semestre, iremos passar uns meses por lá.

Laura: Já esteve na Alemanha antes, meu bem? É um espetáculo. Um exemplo de sociedade, um deslumbre.

Edgar: Mas, nada se compara à Paris...

(Os 4 continuam o jantar, aparece Deus e congela a cena, Ele está indignado)

Deus: Estou cansado. Cansado. Vocês, burgueses, inibem todo o ato do pecado explícito. Fazem com que todo começo da minha história, fique só na parte da serpente. Não reprimam os pecados, as confusões. Vocês terão toda a eternidade para parecerem boas pessoas, educadas e elegantes.
Aqui nessa mesa, onde quatro dos maiores bossais, pervertidos, direitistas se encontram não acontece NADA? Só um blábláblá de universidade, medicina, Paris... Por que não libertam todo veneno que passa dentro dessas cabecinhas tratadas a Loreal importado e me dêem um pouco de entretenimento?
Bem, eu vou dar a última chance por aqui. Senão, o mundo será de vez divido entre milionários e paupérrimos.
Não pensem que será fácil, meus queridos, passar pela aprovação dessa chance. Vocês homens estão cada vez mais caretas e bobos. Enquanto as mulheres nessa necessidade de se tornarem lideres, só se tornam divertidas em dois períodos: na TPM e na menopausa.
Vejamos... Laura, você que controla todos seus tesões e hormônios, terá um pequeno ajuste nos seus efeitos da menopausa e passará a ter mudanças drásticas de sensação de frio e calor. Enquanto, seu marido, Edgar, machista e arrogante, toda vez que ousar falar mal de você, Laura, terá a voz transformada em fina e estridente. Além disso, terá cólicas terríveis ao olhar com reprovação as atitudes de qualquer mulher.
Catarina irá menstruar em ciclos mais curtos, de 28 em 28 minutos. André, tímido André, terá uma excitação incontrolável por Catarina nos quatro minutos de menstruação e total frigidez nos outros minutos.
O show pode começar!

(A cena descongela. Os quatro continuam na mesma posição, com as mesmas ações e vão modificando-as conforme o desenrolar da cena. Tendo atitudes mais bruscas e um palavreado menos comedido)

Laura - Paris é absurdamente linda, mesmo. Mas, me perdoem, que calor infernal! Posso aumentar esse ar condicionado?

Catarina - Claro, querida. André, conte aos nossos amigos o que o Rogério, um invejosinho do trabalho dele, disse quando soube da sua promoção.

André - (ríspido) Agora não.

Catarina - Por que, meu bem?

André - Porque eu não recebo ordens, me dá licença. (muda de lugar)

Edgar - Me perdoe Catarina, mas, vocês mulheres são extremamente inoportunas em alguns assuntos. (conforme fala, a cólica começa e aumenta). Às vezes, nós, homens, simplesmente queremos falar sobre um bom filme, não sobre pessoas e acontecimentos sociais, que são uma... nossa, que incomodo... são uma chatice. (Se contorce de dor discretamente)

Catarina - Me perdoem, cavalheiros de assuntos sempre tão interessantes.

Laura - Edgar, que indelicadeza!

Edgar - Aposto que Catarina não se importou, ela não é encrenqueira como a senhora minha mulher. (conforme diz isso a voz fica cada vez mais fina)

Catarina - Está tudo bem, Laura. Você pode me acompanhar até o banheiro?

Laura - Sim, sim. Vou aproveitar para colocar um casaquinho. Que frio!

Edgar - Agora pouco reclamava de calor! Não sabes o que queres, Laura! (voz fina)
(as duas saem)

André - Quer uma pastilha?

Edgar - (estranhando a garganta) Não precisa.

André - Não sou muito de falar, mas, às vezes penso em largar Catarina. Está cada vez mais dificil encontrar graça nesse casamento.

Edgar - Penso nisso o tempo todo. Mulheres conseguem chegar a insuportabilidade! (cólica forte) Laura, então, quando cisma com uma coisa é fogo! Não dá para agüentar sua insistência. (tenta corrigir, mas, a voz vai cada vez ficando mais fina)

André - (olhando para Edgar achando certa graça de seu descontrole na voz) Sim, sim. Agüentar os defeitos, sem ter... bem, tesão... é uma tarefa de mártir.

(as duas voltam)
Catarina - (para laura) Engraçado, meu ciclo é sempre tão correto. Não entendo.

André - (olha pra Catarina) Minha Catarina. (vai até ela) Como você está linda, me dá um beijo, um beijo enorme, demorado!

Catarina - Calma, André. (lhe dá um selinho) Pronto, querido. Vamos sentar agora.

André - Nada disso. Vamos sair daqui agora, eu quero você agora. Começa a agarrá-la.

Laura - Que calor absurdo! (leva uma cadeira até o ar-condicionado e sobe nela)

Edgar - Laura, olha a compostura! (voz fina)

Laura - Mas, vocês não estão sentindo esse calor?

André - ESTOU! Mas, é por causa dessa jóia com quem me casei.

Catarina - André, você está tão diferente.

Edgar - Se vocês quiserem ir para quarto de hóspedes, tudo bem. Eu tenho que levar essa mulher para uma ducha gelada. (voz fina) Senão daqui a pouco, ela coloca essa temperatura à menos 17.

André - Vamos, meu amor, vamos!

Catarina - Mas, seria falta de educação, Dré.

André - Vem, vem (abraçado aos seus pés).

Laura - EDGAR! Me dá o meu casaco e me dê sua enxarpe.

Edgar - O que está acontecendo com você? (voz fina e cólica)

Laura - Quer uma pastilha, meu bem?

Edgar - Não!

Catarina - Calma, André. Você está fora de si!

Laura - (coloca um gorro) O que houve com sua barriga, Edgar? A comida estava ruim?

Edgar - Estava! (dor de cólica) Quer dizer, quer dizer, não estava, estava uma delicia. Sublime!

André - (ainda agarrado na perna de Catarina) O que eu estou fazendo? (acaba o tesão, olha com desprezo para sua mulher.)

Catarina - Você está bem?

André - (de maneira comedida) O que não está bem é o nosso casamento. Me deixe um pouco sozinho.

Catarina - Mas, agora pouco você parecia estar tão...

Edgar - Grotesco. Ai, minha barriga!

Laura - NÃO AGUENTO MAIS ESSE CALOR! (se despindo)

Catarina - Laurinha, você está com algum problema hormonal querida?

Laura - Eu não sei, não sei. (subindo novamente em frente ao ar-condicionado)

Catarina - (para Laura) Acabou.

Laura - O que?

Catarina - Aquele fluxo enorme. Parou do nada.

Laura - (se abanando, esbaforida) Que bom, que bom, me traz gelo! gelo!

Edgar - Casei com uma maluca! Ai! Digo, adoravel mulher de mente inquieta e criativa.

André - O que você está falando?

Edgar - Oras, não vê que minha voz está boa! Tão boa quanto minha mulher.

Laura - Obrigada, benzinho, mas, me traga gelo. (Nisso, Catarina passa gelo nos braços de Laura)

Edgar - Claro, ben-zi-nho.

André - E eu que perco a compostura, não é Edgar?

Catarina - Laura, posso urgentemente usar seu banheiro de novo?

Laura - Vá e me traga um copo de água bem gelado!

André - (quando laura chega à porta) Volte aqui minha musa!

Catarina - O que você quer? (para André) Te dou o divórcio, se quiser, não aguento mais suas manias!

André - Modifico. Modifico tudo por você, mas, vamos por favor ao quarto de hospedes.

Catarina - Você está louco, André, louco!

André - Por você! Louco por você!

Edgar - Laurinha, uh uh, aqui está seu gelo.

Laura - Um cobertor! Meu reino por um cobertor. (vestindo o gorro, o cachecol e abraçando Edgar para se esquentar)

Catarina - (sendo puxada por André) Calma, André!

André - Vou lhe proporcionar a melhor noite de nossas vidas!

Edgar - Minha linda, divina, querida.

Laura - Me aqueça, Edgar! Me aqueça!

(nisso os quatro começam ações cada vez mais exageradas e chegam num ponto máximo. Quando aparece, Deus.)

Deus - Muito bem, muito bem. Vocês estavam ótimos. Mas, infelizmente, não poderei deixar-vos com essas características tão peculiares.
Espero que tenham aprendido a lição, minhas crianças mimadas.

(faz um movimento como se estivesse desfeito o 'feitiço'. Assim, os quatro voltam ao estado norma e se sentam à mesa como se nada tivesse acontecido)

Laura - Quando voltar em Paris vou aproveitar e comprar uma bolsa da nova coleção da Louis Vitton.

Edgar - Você só pensa nisso, não é? Gastar, gastar...

Catarina - Por que não passamos os quatro, na próxima primavera, em Paris?

André - Os quatro?

Laura - Num Hilton!

(Deus entra em cena e estala os dedos, assim, os quatro desmaiam com a cara 'na mesa')

FIM

segunda-feira, outubro 25, 2010

Os sonhadores

O filme de Bertolucci que me deixou em estado de encanto.



 "TODO POEMA É UMA PETIÇÃO. TODA PETIÇÃO É UM POEMA"



"Se eu acreditasse em Deus, ele seria negro, guitarrista e canhoto"

quarta-feira, outubro 20, 2010

Bruta flor

Querer, eu quero
E quero em quantidade.
Quero agora
Quero e quero
Sem questionar,
Quero-te
Quero-me em ti
Quero-te quase inteiro

Mas, não inteiro
Porque curto
O mistério
E o querer sempre
Mais.

Quanto quero...
Um só tipo de querer
E que querer não
Seja qualificado

Quero querer maltrado,
estrupício. Querer
de bordel e hospício
Querer como quase um
Suplicio.
Suplicar por aquilo
Que não posso mais ter.
E, assim mesmo, quero.

quinta-feira, outubro 14, 2010

Pseudo Annie Hall

(vídeo caseiro feito por Igor e Nina – gravado na casa dela)


Nina - Ta, esse vídeo é para dizer o quanto eu quero ser o Woody Allen.

Igor- Não, faz direito, faz direito...

Nina – O que você quer que eu fale? Chapter one she adores rio de janeiro city.

Igor – (rindo) gato, fala do gato

Nina – Pra mim, o Rio é uma cidade que liberta a minha gata interna

Igor – (rindo mais) não é isso...

Nina – (rindo) Esquece vai...

(aparece Nina vendo o filme, no mesmo quarto em que este foi gravado, pelo computador)

Nina – Eu e Igor terminamos. É pouco provável que um casal que se junte no colégio dure pra sempre, mas, nós tínhamos tudo para durar. Eu poderia dizer que a culpa é dos meus pais que se separaram quando eu era muito nova fazendo desde cedo meu inconsciente apagar o que definimos de relação entre um casal. A culpa é deles sim, como sempre. E um pouco minha. Um pouco. Talvez porque Igor aceitava todos meus defeitos e talvez de tanto querer ser um personagem do Woody Allen, eu acabei me incluindo na frase de Grouxo Marx: “Eu não sou membro de um clube que me aceite como sócio”

(Notas da autora: La-di-da La-di-da Lala)



essa imagem não é de Annie Hall, mas é a cena de cinema mais charmosa existente.

sábado, outubro 09, 2010

Na galeria de arte

Na galeria de arte, dois amigos. Um pintor e um amigo que quer se mostrar conhecedor das artes:


Amigo - Nossa que sujeito abatido, parece até Van Gogh prestes a cortar as orelhas...

Pintor - Meu primo.

Amigo - Ih, aquela ali parece que acabou de sair de um quadro do Botero.

Pintor - Poxa, Fred, é minha mãe.

Amigo - E aquele é tão feio que parece ser aquele cara do “o grito” do Munch.

Pintor - É meu irmão, cacete.

Amigo – Eu vou parar de comentar, mas, as pessoas aqui são tão, tão...

Pintor – Inspiradoras... Por isso que eu pinto quadro de pessoas, quando as acho fascinantemente mal feitas por Deus, eu pinto. Aposto que esses, Botero, Picasso, Munch faziam o mesmo...

Amigo – Há! Olha aquela garota, tem um pé tão grande quanto aquele de Tarsilla...

Pintor – Sim, minha mulher...

Amigo – Poxa, desculpas, desculpas mesmo... Você está ficando zangado?

Pintor – Vem cá, deixa eu te mostrar esse quadro.

Amigo – Calma, calma... Meio esquisito... Bom, bom...É seu? Engraçado, parece um pouco com Picasso... cubismo?

Pintor – Não, é a textura da pele mesmo.

Amigo – E esse nariz?

Pintor – Proposital.

Amigo – Mas, ele é meio vesgo... errou a mão?

Pintor – Nada.

Amigo – Magricelo, iguais aquelas bailarinas de Degas, meio bicha...

Pintor – é...

Amigo – Tem alguma coisa nele que me incomoda, sem dúvidas o mais feio. Tem cara de arrogante e mesquinho... Quem é esse?

Pintor – é você!

O amigo nunca mais foi numa exposição do amigo pintor, o qual um quadro chamado "a mãe de um amigo" foi o que fez mais sucesso.